Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Aos 60 anos, Conjunto Nacional faz uma volta às origens

Símbolo de São Paulo, espaço na Avenida Paulista busca retomar glamour e valorizar a memória, segundo síndica

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 05h54

SÃO PAULO - Há quem diga que a “melhor idade” começa aos 60 anos. O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, segue a frase à risca em meio às comemorações das seis décadas da inauguração. A ideia é “retomar o glamour” e valorizar a memória, segundo Vilma Peramezza, de 76 anos, síndica do espaço desde 1984. “Chamamos de volta para o futuro.”

Grande parte desse movimento prevê a valorização das características originais do conjunto, tombado em 2005 pelo Estado, e situado no centro expandido na cidade de São Paulo. Uma das propostas é “revitalizar” o antigo espaço ocupado pelo Restaurante Fasano no terraço durante os anos 50 e 60, que chegou a receber celebridades como Nat King Cole e Marlene Dietrich. Está fechado há cinco anos, desde a saída de uma empresa de call center.

Outro objetivo é restaurar o calçamento do entorno e todo o piso térreo. A cúpula de alumínio, que ocupa o terraço, também deve passar por reparos. Além disso, uma equipe colhe depoimentos para reunir em um livro ou documentário. 

Parte dessa retomada, contudo, já ocorre naturalmente. Precursor dos shoppings, o espaço hoje mantém uma estrutura comercial e cultural no térreo semelhante à da abertura, com teatro, cinema, supermercado, espaços gastronômicos e lojas. Nesse meio tempo, viveu uma fase mais “financeira”, com muitos bancos, e uma breve decadência após ser atingido por um incêndio, em 1978.

Hoje, o conjunto recebe 8 milhões de visitantes por ano, além de cerca de cem moradores e centenas de escritórios, que vão de advogados a estúdio de pilates e Consulado da Bélgica. “Todo mundo conhece. Não precisa explicar. Já viu se tem algum lugar lá fora escrito ‘Conjunto Nacional’? Não precisa”, diz Vilma.

Dentre os funcionários mais antigos está o supervisor José Manoel Gonçalves, funcionário há 36 dos seus 72 anos, que cuida de 35 mil correspondências por mês. “A Paulista não tinha esse trânsito, não tinha metrô, mas aqui foi sempre cheio.”

O conjunto foi idealizado pelo argentino José Tjurs, um ex-taxista e guia turístico que via a Paulista como a futura “Quinta Avenida” brasileira. Por isso, criou o primeiro espaço comercial da avenida, na época considerada residencial, diz o arquiteto Antonio Soukef, autor de Avenida Paulista - Síntese da Metrópole. “Rapidamente passou a ser uma referência urbana. É um sessentão em plena forma.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

CENÁRIO: Edifício simboliza encontro e convivência

'O resultado é a criação de uma praça aberta que transmite a sensação de que somos todos bem-vindos'

Mariana Barros, Esquina

13 Setembro 2018 | 06h30

Quando o arquiteto David Libeskind (1928-2014) propôs a criação de um edifício sem portas, com múltiplas entradas e que tinha no piso interno a continuação da calçada, usando o mesmo revestimento de pedras portuguesas, mudou para sempre o imaginário paulistano. Ali se fundiram os limites entre público e privado, rua e propriedade, dentro e fora. Entre as várias ousadias colocadas em prática, o principal mérito do Conjunto Nacional é questionar as fronteiras, reforçando a noção de que somos todos parte da cidade. Foi a pedra fundamental e marca da vocação de uma avenida que, com o passar do tempo, só se tornaria mais e mais aberta para as pessoas.

A escala do edifício dialoga com a da rua, tornando-o convidativo aos pedestres. Seu interior permite diferentes percursos, contribuindo para torná-lo ainda mais atraente para quem está a pé. O resultado é a criação de uma praça aberta que transmite a sensação de que somos todos bem-vindos.

O uso misto é outro ponto importante, pois dá vida própria ao edifício e fez dele um dos endereços mais interessantes e, ao mesmo tempo, seguros da cidade. Ele comprova que nada pode ser mais tranquilo do que um lugar cheio de gente, mesmo quando não há controle de entrada, aplicando a mesma lógica que faz o sucesso do Copan. A convivência de diferentes perfis também é bem-vinda. Em uma avenida que se tornou sinônimo do encontro, o Conjunto Nacional não poderia ser mais atual. 

*MARIANA BARROS É CO-FUNDADORA DO ESQUINA.NET.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.