Aos 32 anos, ele prefere máquina de escrever

Criminalista ainda usa antiga Remington para datilografar petições e critica ''cultura do modelo''

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

    

 

A máxima é inquebrável: se há modernização, sempre tem quem resista. No caso do Judiciário não é diferente. Além dos advogados que utilizam o computador para escrever recursos e petições, mas não os protocolam diretamente pela internet - grupo que constitui a maioria dos não certificados -, há também aqueles que resistem em adotar teclado e mouse.

O advogado criminalista Martin Augusto Carone dos Santos, de 32 anos, há sete na profissão, pensa exatamente assim. Ele trabalha em um escritório, no centro, onde tem duas máquinas Remington (uma de 1956 e outra de 1942) e, encostado no canto e ligado só em raras ocasiões, um computador. "Desde que me conheço por gente escrevo em máquina. Tenho prazer em fazer as coisas assim."

Santos escreve mais de 300 páginas nas máquinas por mês, mas não se considera um ludista. Ele diz que não tem problemas em utilizar o computador quando necessário. "Poder fazer um acompanhamento processual pela internet, por exemplo, é fantástico."

Mas a preferência cotidiana é quase sempre pelas máquinas, tanto pelo prazer de ouvir o "tec-tec" das teclas de metal quanto pela luta contra o que ele chama de "cultura do modelo". "Se você conversar com outros advogados, com promotores, vai ver que tem muita gente que leva no pen drive um modelão para cada tipo de recurso, coloca no computador, faz modificações finais e pronto. Não acho isso legal, considerando que estão em jogo 10, 15, talvez 20 anos da vida de alguém", explica.

Control C. É por essa razão que Santos não é entusiasta da crescente onda de digitalização do Judiciário. De acordo com ele, uma petição escrita à máquina deixa claro o trabalho artesanal do autor, que escreveu cada letra ali, tecla por tecla, e não fez um trabalho somente com "Control + C, Control + V". Ele afirma que vai utilizar o computador nos casos que o STF determinar necessário, mas não acredita que a política antipapel vai aumentar a celeridade da Justiça. "O que agilizaria a tramitação dos processos é colocar mais gente trabalhando. Não é a base física do papel que vai resolver isso."

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