Ao som de fuzis, 80 pessoas se casam na penha

'Queria suspender os casamentos, mas os casais protestaram', disse uma funcionária

Bruno Boghossian / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

Ao som dos disparos de armas de fogo e durante incursão de cem policiais, cerca de 40 casais se espremiam pela manhã no cartório da 12.ª Circunscrição da Penha, na Rua Dionísio, um dos acessos à Favela da Merendiba, para consumar a união civil. "Queria suspender os casamentos, mas os casais protestaram", disse uma funcionária.

Na saída, recém-casados e testemunhas deixavam o local acuados contra a parede para evitar a linha de fogo. "A situação é difícil, mas já programamos tudo e não dá para adiar. Quero casar com ou sem tiroteio. Confio em Deus para que nada aconteça", disse o noivo Leandro Barbosa, de 25 anos.

A excitação dos noivos se misturava ao medo, inspirado pela presença do Bope na Vila Cruzeiro. A favela é apontada como o principal refúgio dos traficantes "exilados" pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), ao lado das demais favelas do Complexo da Penha. As cooperativas de táxi suspenderam o atendimento aos clientes do bairro e bancos e lojas fecharam nas Avenidas Nossa Senhora da Penha e Brás de Pina, as principais da região. Entre os moradores das favelas do Complexo da Penha, o medo exige o anonimato. "Moro aqui há um ano e estou apavorada. Essas pragas aprontam nas ruas e nós pagamos. Minhas amigas não me visitam por medo. Não vejo a hora de sair daqui", disse uma balconista, moradora do Morro da Fé.

No final da tarde, dezenas de pessoas estavam aglomeradas nas esquinas dos acessos às favelas, aguardando o fim do tiroteio. "São várias as preocupações. Minha mãe ligou e disse que a polícia estava arrombando as casas em busca dos traficantes. Por isso, não sabemos se vamos chegar em casa ou como vamos encontrar as nossas casas", lamentou uma garçonete.

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