Ao menos 85% dos poços artesianos do País são clandestinos

Recurso é um meio de abrandar os problemas da escassez de água atual, mas depende de fiscalização efetiva

Marcelo Portela, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2014 | 21h10

BELO HORIZONTE - Pelo menos 85% dos poços artesianos que existem no Brasil são clandestinos. O dado é da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), que considera o uso deste tipo de recurso um meio de abrandar os problemas da escassez de água atual, mas desde que haja uma fiscalização efetiva sobre a construção dos poços. Segundo a entidade, o controle é pífio e há apenas uma estimativa de que o País pode ter cerca de 100 mil estruturas do tipo, sendo 8 mil apenas em São Paulo.

Segundo o secretário executivo da Abas, Everton de Oliveira, há diversas cidades brasileiras que são abastecidas com águas subterrâneas por causa do custo de tratamento do recurso, bem menor que o de águas de superfície pelo grau de pureza. De acordo com a entidade, em São Paulo, por exemplo, metade dos municípios usa apenas este tipo de água e até cidades como Manaus (AM), cercada de rios, opta pela exploração de aquíferos subterrâneos por causa da qualidade e do baixo custo. 

"As águas subterrâneas poderiam ser melhor utilizadas em crises hídricas", avaliou Oliveira, Ele ressaltou, porém, que há uma grande "dificuldade de outorga de poços" no Brasil, o que favorece a proliferação de perfurações clandestinas e a consequente ameaça até mesmo à qualidade da água. "Temos apenas uma ideia de quantos poços clandestinos há no Pais com base nas bombas que são produzidas. E sabemos que metade dessas bombas é usada em manutenção de poços clandestinos, feitos de forma errada. Trabalhamos para que os poços estejam dentro das especificações", observou.

Estes são alguns dos temas tratados em evento em Belo Horizonte que reúne o XVIII Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas, o XIX Encontro Nacional de Perfuradores de Poços e a VIII Feira Nacional da Água. Integrante da organização do evento, o professor Celso Loureiro, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental (Desa) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a perfuração correta de um poço é uma forma de garantir a qualidade da água subterrânea, que se torna essencial no momento "divisor de águas" em que vivemos.

"O recurso não vai ser usado em grandes conglomerados urbanos. Não é solução do problema em longo prazo, mas um paliativo", salientou. Ele ressaltou, porém, a necessidade de um "plano estratégico" para que não seja preciso a adoção de medidas em "situação emergencial", como a do governo paulista, que autorizou a perfuração de poços artesianos sem outorga. "Pode ser que a escassez não ocorra na próxima década, mas ela pode voltar em dois anos", disse.

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