Antigo presídio vira refúgio de outras cheias

Desabrigados das enchentes de 1988 vivem até hoje de forma precária em local projetado para ser a primeira colônia penal agrícola de Alagoas

, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

Na terra do líder negro Zumbi dos Palmares, uma legião de esquecidos ? sobreviventes e parentes dos desabrigados das enchentes de 1988 ? ocupa há 22 anos os 21 pavilhões da Colônia Penal Agrícola Santa Fé, em União dos Palmares, a 80 quilômetros de Maceió.

Cerca de 150 famílias foram levadas para o local, onde moram até hoje. Vivem atrás de grades, divididas com varais de lençóis, usando banheiros improvisados e sem água encanada. As mulheres lavam as roupas no rio, pegam água em um chafariz ou buscam em açude e poços. Quando a situação aperta, o socorro chega em carros-pipa.

A instalação ocupa uma área de 22 hectares, próximo de uma reserva de mata atlântica, a poucos quilômetros da pista da BR-104. Construída na década de 1970 para ser a primeira colônia penal agrícola de Alagoas, nunca funcionou como tal.

"Aqui a gente entra e sai, sem precisar pedir licença a ninguém. Não vivemos em uma prisão, moramos em um presídio desativado, não pagamos nenhuma pena, temos liberdade, o que falta é uma moradia digna", reivindica Alonso da Silva, de 48 anos, um dos sobreviventes das enchentes de 1988.

Promessas. "Cadastro, promessa, nome em lista, a gente tem muito. Mas até hoje a gente mora aqui à espera de uma moradia decente", reclama Luzente da Silva, de 23 anos, mãe de quatro filhos. "Entra e sai prefeito e eles não resolvem, só sabem mandar umas cestas básicas e a merenda escolar. Quando sobra", acrescenta Maria Aparecida, de 29 anos, moradora do pavilhão 13.

"Os políticos só aparecem por aqui em época de eleição", revolta-se Sônia, moradora do pavilhão 15. "Nessa chuva agora molhou tudo dentro do meu pavilhão, a água corria de bica pela rachadura no teto", acrescenta. Os moradores ainda têm outra reclamação: desde o começo das chuvas, há 13 dias, a vila inteira está sem energia elétrica.

Cena repetida. "Eu morava em uma rua que a cheia derrubou, e agora aconteceu tudo de novo. Naquela época, eu perdi tudo. Saí de casa com a roupa do corpo. O rio subiu e a casa caiu. Mandaram a gente para esse presídio e até hoje a gente vive aqui", comenta Severina Nazário da Silva, de 57 anos, viúva de dois maridos e mãe de oito filhos, sete vivos. Todos nascidos e criados na colônia penal. / R.R.

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