Antigas profissões se revalorizam

Antigas profissões se revalorizam

Na esteira da onda hipster, açougueiros, barbeiros, alfaiates e até floristas apostam no retrô e conquistam clientela na capital paulista

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - As cicatrizes nos dedos não escondem: Rogério Betti, de 38 anos, é açougueiro. Mas esqueça o avental branco manchado de sangue e peças de carne espetadas em ganchos atrás do balcão. Dono de um estabelecimento na zona sul de São Paulo, Betti é de uma nova geração de profissionais que está repaginando ofícios clássicos.

Além dos açougueiros contemporâneos, barbeiros, alfaiates e até floristas ganham espaço entre paulistanos que querem outras experiências de consumo. Em comum, essas profissões - na esteira da moda hipster - retomam um jeito retrô de produzir: prezam pelo tempo e pela personalização, valorizam o aspecto artesanal e incentivam o “faça você mesmo”. 

No açougue de Betti, o DeBetti, na Cidade Jardim, zona sul, a mudança é até geográfica: as carnes ficam expostas em uma vitrine de vidro no centro do estabelecimento, em meio aos clientes. E eles podem escolher exatamente o corte que mais agrada. “Os açougues eram feios, sujos e tinham moscas. E o açougueiro sabia cortar carne, mas não sabia para que ela servia ou como preparar”, afirma Betti, que é a da quarta geração de açougueiros na família.

Dar consultoria é uma das novas atribuições dos funcionários. “Se você tem dúvida sobre como fazer algum tipo de carne, eles ensinam. Pegam as carnes e deixam do jeito que você quer. Não consigo ir lá e ficar só 40 minutos. Fico de duas a três horas batendo papo”, conta Hamilton Junior, de 30 anos. Dono de uma oficina mecânica, ele bate ponto no DeBetti todo fim de semana. “Até engordei”, brinca.

Para Pedro Ricci, funcionário do açougue, a visão sobre o ofício está mudando. “No começo, eu tinha certa vergonha, quando ia sair com uma namorada, de falar que sou açougueiro. Hoje falo com o maior orgulho, e o que era vergonha virou vantagem. Essa profissão tem sido vista como uma coisa bacana. Nunca fui tão convidado para churrascos”, comemora o jovem de 22 anos que deixou a graduação em Economia para se dedicar às carnes.

Linhas e agulhas. Quem também mudou a trajetória da carreira para voltar às origens foi o alfaiate Bruno Colella, de 37 anos. Inspirado pelo avô, que se dedicava ao ofício, ele abriu uma alfaiataria na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo, depois de se formar em Hotelaria e trabalhar com comércio exterior. Na BRNC, as roupas são feitas sob medida. É possível escolher - alisando as texturas de um catálogo - entre 14 mil opções de tecidos e fazer algumas provas para ajustes antes de receber o produto final. “Compro exatamente o (necessário para o) consumo.” A exclusividade tem um preço - não só em dinheiro: um terno pode levar até 60 dias para ficar pronto e não há a opção de encomendas “express”. 

“O cliente vai ‘digerir’ a compra por alguns dias, semanas ou até meses. E participa do processo com a gente. Isso desperta um interesse”, conta Colella, em meio ao som nostálgico das máquinas de costura ao fundo. “É diferente de pegar uma roupa no cabide, sem saber por quantas mãos passou.”

Tradicional, a área da alfaiataria também está mudando. A tendência é produzir roupas mais confortáveis e são utilizados no processo programas de computador, conta Edson Azurem, de 36 anos, que trabalha na BRNC há dois meses. “Eu sou alfaiate, mas não sou daqueles ‘tiozões’, não. Sou modelo novo, repaginado”, avisa.

Navalha. No nicho da vaidade masculina, outro setor que cresceu em São Paulo foi o das barbearias. Em estilo vintage, elas fazem ressurgir a figura do barbeiro e já mobilizam jovens atrás de formação para aprender a cultivar os bigodes. “Eu não nasci barbeiro”, diz Leandro Felipe, de 34 anos, para explicar que entrou no ramo ajudando a mulher em um salão de beleza. Só depois se especializou no cuidado com os pelos masculinos.

Hoje, é um dos oito que atendem na barbearia Vegas, em Santa Cecília, toda decorada com referências à cidade americana dos cassinos. O espaço, na região central de São Paulo, oferece quase uma terapia. “Entrevisto muito meus clientes para entendê-los. É um tratamento que o homem antigamente não tinha.” Lá, para cada corte, se ganha uma cerveja e há espaço para tatuagem e até para fumar um charuto. 

Primeiro cliente da Vegas, que abriu há menos de um ano, o advogado Jeffeson Omena, de 45 anos, é vizinho do espaço e ficou curioso desde a montagem. “Sou do tempo em que barba era uma coisa feia e suja, mas a tendência começou, e em casa eu não conseguia nunca deixá-la com estilo diferente.”

Agora, o advogado vai duas vezes por mês e já leva os filhos de 12 e 14 anos, enjoados de frequentar salões unissex com a mãe. “Aqui eles se sentem homens e querem fazer barba. Mas, para crianças, (o brinde) é um refrigerante”, adverte Omena. “E o sonho deles é chegar à cerveja”, completa, aos risos. Fazer a barba é até desculpa para relaxar e ver a hora passar. “Sexta à tarde, tiro para mim.”

Estações. Quem também reverencia o tempo é a florista Marina Gurgel, de 31 anos. Ela criou com a amiga Tatiana Pascowitch, de 42 anos, o ateliê de flores A Bela do Dia, em Pinheiros, na zona oeste. Elas entregam arranjos autorais sem pressa: flores encomendadas são levadas em bicicletas até o destino.

“Precisa ser feito com tempo. E temos de respeitar o tempo de cada flor”, afirma Marina.  No ateliê, que começou em 2013, as floristas já dão cursos para ensinar a fazer arranjos em casa e oferecem o serviço de assinaturas de flores, com entregas uma vez por semana.

Os arranjos atraem quem procura um pouco de colorido em meio ao cinza da cidade. “Flores não resolvem todos os problemas, mas são um ótimo começo”, diz uma mensagem na porta do ateliê. “É a volta ao romantismo. E as flores são o símbolo máximo”, diz Tatiana. 

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