Antes da missa da Sé, o corre-corre do sacristão

Responsáveis por portas, gavetas e mais de 200 chaves, sacristãos abrem e fecham a Sé e são os últimos a sair

Edison Veiga, de O Estado de S. Paulo,

23 Janeiro 2009 | 11h50

A Vila de São Paulo de Piratininga nasceu da criação de um colégio jesuíta, em 25 de janeiro de 1554. Para marcar o acontecimento, os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta rezaram no pátio desse colégio uma missa em honra a São Paulo - na data, os católicos comemoram a conversão do santo. Pertinho dali, na Catedral da Sé, a tradição é mantida - às 10 horas de hoje o núncio apostólico d. Lorenzo Baldisseri, bispo italiano que representa o papa no Brasil, celebra uma missa especial,  acompanhado pelo cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer.   Veja também: O senhor da hora certa Depois da última estação De carne de bode a celulares - muitos celulares Uma balsa. Dentro de São Paulo Uma cozinha para atender à bicharada 560 mil postes = 300 lâmpadas queimadas por dia O endereço dos alimentos Comida para quem tem fome O caminho da água, dos mananciais às torneiras A metrópole desvendada   Na sacristia, a movimentação se inicia quase uma hora antes. A sisudez e o silêncio daquele espaço, cujas três portas dão acesso ao altar, aos escritórios dos religiosos e à secretaria da igreja, começam a ser quebrados pelos preparativos de uma missa. Um dos dois sacristãos se encarrega de deixar as vestes litúrgicas à disposição dos sacerdotes - nas cores branca, verde, vermelha, roxa ou rosa, conforme a ocasião religiosa - e preparar todos os objetos que serão utilizados durante a cerimônia.   No domingo passado, quando o Estado acompanhou o processo, quem estava trabalhando era o paraibano Vandílson Nascimento, de 30 anos, há 11 em São Paulo. Antes de ganhar a vida como sacristão, foi vigia noturno da própria igreja. Hoje sabe, orgulhoso, tintim por tintim, sobre a organização da missa. Conhece como poucos o conteúdo das 32 portas e 31 gavetas do armário principal da sacristia e dos outros dois, que se assemelham a guarda-roupas, um com cinco portas, outro com seis. Toda a mobília, solene, é de jacarandá. Ah, sim, há ainda uma mesinha de apoio com uma gaveta e uma mesa maior, com quatro cadeiras.   Não é só da sacristia que Vandílson cuida. Ele divide com seu colega, o outro sacristão, a responsabilidade de manter organizada e funcional toda a igreja. Quantas chaves têm aí no seu bolso? "Ixi, não sei não", responde. "Mais de 40, com certeza. E, no quadro lá no fundo, são outras 200."   Enquanto os religiosos vestem os paramentos e se preparam para a missa - sempre interrompidos por um ou outro leigo que quer combinar se o salmo será cantado ou rezado, quais serão os avisos ao fim da cerimônia e outras coisas do tipo -, Vandílson não para. Precisa deixar à mão os dois livros utilizados pelo celebrante, o Missal e o Evangeliário, e o sino que será tocado na hora da consagração da Eucaristia.   Depois, corre para o armário onde está guardado o vinho do tipo canônico - marca João Paulo II, em homenagem ao papa que precedeu o atual - e enche a galheta que será levada ao altar. Em seguida, acende o incenso. Corre para cá, corre para lá, fica atento a todos os detalhes para que nada falte.   Quando a procissão de entrada se encaminha para o altar, Vandílson respira aliviado e resta sozinho na sacristia. De prontidão, caso haja algum imprevisto. É católico? "Sim, mas não tomo comunhão quando estou trabalhando, né?", diz ele, que admite ir só de vez em quando à igreja como frequentador. Mas, assim, trabalhando, ele acompanha três missas todos os domingos - e duas por dia ao longo da semana. "O sacristão é o último a sair", explica. "Tenho de abrir e fechar a igreja."

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