Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Animal é potencial transmissor de febre aftosa

Um dos maiores temores do governo e dos produtores rurais em relação à invasão da espécie é que ela tem potencial para transmitir doenças

Giovana Girardi e Gabriela Biló, enviadas especiais a Barretos (SP), O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 03h00

Na noite em que acompanhamos uma “rodada” , o caçador Anderson Moreno perguntou à reportagem se já tínhamos ouvido algum relato de javalis com febre aftosa. Um dos maiores temores do governo e dos produtores rurais em relação à invasão da espécie é que ela tem potencial para transmitir essa doença e também a peste suína clássica. “Tem bicho que a gente pega que não está normal, muito magro, sem motivo para isso. Parece doente.”

O Brasil é considerado área livre dessas duas doenças, e até o momento elas não foram detectadas em nenhum javali analisado, mas, se isso acontecer, poderia comprometer os rebanhos nacionais e fechar as portas para as exportações. “Isso pode ser muito pior que as destruições de plantações”, afirma o ecólogo Felipe Pedrosa, da Unesp, que estuda a invasão da espécie.

Esse risco é um dos fatores que estão motivando a elaboração de um plano de controle da espécie exótica invasora que seja interministerial. O documento está previsto para sair no primeiro trimestre de 2017. 

“Sabemos que a instrução normativa que liberou a caça tem fragilidades que estamos tentando corrigir”, afirma João Pessoa Riograndense, Coordenador de Autorização de Uso e Gestão de Fauna e Recursos Pesqueiros do Ibama.

Um dos pontos considerados é que, pela enorme burocracia para um controlador conseguir as todas as licenças, muita gente age na ilegalidade. No registro do Ibama há 15 mil controladores e, desde 2013, eles relataram terem abatido somente 5 mil javalis, número que se acredita estar bastante subestimado. 

Mesmo maior, porém, claramente não tem resolvido o problema. “Fazer o manejo e controle (jargão técnico para caça) se mostrou insuficiente. Precisamos de outras ferramentas, como incentivar e facilitar o uso de armadilhas e fazer atividades para educar o agricultor a não criar javaporcos. E temos de ter muito mais fiscalização, não só federal, mas também dos Estados”, afirma Riograndense.

“Temos a noção de que não vamos erradicar a espécie, mas com o plano pretendemos reduzir a população e mantê-la num nível que os impactos para o ambiente e para a produção fiquem nível aceitável. Só não sabemos dizer ainda quanto é isso”, complementa.

Para o agrônomo Rafael Salerno, da rede Aqui tem Javali, o governo deveria liberar a caça. Ele defende que controle real deveria ser sinônimo de extermínio. “Não pode ter restrição para o abate de uma praga, assim como não tem para ratos, baratas e pernilongos. Ou vamos conviver com o risco de ter um surto sanitário”, defende.

Para ele, é “sorte” que haja pessoas interessadas em fazer o controle como forma de lazer. “É um favor que estão fazendo para a agricultura. Mas o custo estimado para abater um javali é de R$ 1.000, envolve a burocracia do Ibama, do Exército, o custo da arma, da munição, o combustível, veículo, horas/homem”, calcula.

Outra questão discutida é a destinação do animal depois de abatido. O consumo não é recomendado porque não existe controle sanitário, mas é permitido dentro da propriedade. O transporte e a doação, em teoria, são proibidos, mas, acontecem o tempo todo. Como diz Salerno, “ninguém deixa 50 kg de carne para trás”. Há também relatos de vendas ilegais. 

Caçadores e controladores defendem que haveria ainda mais abate se esse consumo fosse de algum modo regulamentado. Para isso, pedem a criação de alguns centros de análise sanitária pelo Ministério da Agricultura que pudesse fazer a liberação da carne. 

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