Angélica, esquina da Sergipe

Quase diante do portão dos fundos do Cemitério da Consolação, belo nu feminino em granito, de Francisco Leopoldo e Silva, interroga o motivo da morte de Moacyr de Toledo Piza, advogado, poeta, boêmio dos anos 1920. O escultor era irmão do arcebispo, Dom Duarte, em cuja casa morava e esculpia. Ficava onde é hoje a Biblioteca Municipal.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2011 | 00h00

Na noite de 25 de outubro de 1923, uma quinta-feira, Moacyr Piza foi à procura de Nenê Romano, jovem prostituta de luxo, lindíssima, amante de políticos e ricaços. Diziam que era amante do governador. Uma semana antes, depois de dois anos de romance, ela rompera seu caso com Piza.

Num corso de Carnaval, na Avenida Paulista, em 1918, um amante atirara-lhe um bilhetinho, o que foi visto pela noiva, Maria Eugênia. O incidente desencadeou a trama que acabaria em tragédia. A moça era filha de rica e severa fazendeira de Ribeirão Preto, já acusada e presa antes como mandante do assassinato do marido francês de outra filha, porque mais interessado na herança do que na esposa. Dois capangas foram mandados a São Paulo. Não conseguiram matar Nenê Romano, mas desfiguraram-lhe o rosto a navalhada. Era o que, no tempo da escravidão, sinhás ciumentas mandavam fazer com as escravas bonitas quando descobriam que eram amantes do marido.

Os criminosos foram presos, mas a mandante não. Nenê Romano entrou, então, com ação de indenização pela lesão sofrida. O processo se arrastava, porque contra gente poderosa, o que a levou a contratar Moacyr Piza como seu advogado, antigo delegado de Bragança e Cruzeiro, para desemperrar o processo.

Ele, porém, se apaixonou por ela, a italianinha deslumbrante, que chegara ao Brasil em 1899, com 2 anos de idade. Muito jovem se tornaria costureira no bairro do Brás e, depois, camareira do Hotel Bela Vista, na Rua Boa Vista. Ali se prostituiu com fazendeiros e políticos, gente rica e poderosa. Foi amante de seu advogado por dois anos, quando decidiu deixá-lo. Ele tentou reatar. Mandou-lhe no aniversário o estranho presente, para amantes, de um faqueiro e um buquê de flores, que ela recusou. Foi, então, à sua casa, na Rua Timbiras nº 18-A, perto da Luz. Havia um carro de praça parado à porta; estava de saída. Porque tinha pressa, mandou-o entrar no carro, para conversar. Quando subiam a Avenida Angélica em direção à Avenida Paulista, na altura da Rua Sergipe, ele deu-lhe vários tiros. Em seguida, matou-se, caindo-lhe por cima.

Foi assim que ela voltou ao Brás, para ser sepultada no Cemitério da Quarta Parada. Sobre seu caixão, as amigas colocaram as flores que Moacyr lhe enviara com o presente de aniversário. Dele, ficaram os versos da paixão desesperada: "O amor de uma mulher, que é o meu Destino/ E cuja boca é a taça do veneno /Que faz de um homem justo - um assassino."

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