Andinho comanda tráfico de presídio de segurança máxima

Sequestrador famoso pelo envolvimento na morte de Toninho do PT diz que, da cela, também manda punir desafetos

Josmar Jozino, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2010 | 00h00

Trancado numa cela de 9 m² no presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau, no oeste do Estado, o sequestrador Wanderson Nilton Paula Lima, o Andinho, de 31 anos, condenado a 632 anos, 8 meses e 15 dias de prisão, comandou pelo menos até 2009 as bocas de tráfico em Campinas, a 504 km dali. Em depoimento à Justiça no dia 1.º de fevereiro, ao qual a reportagem teve acesso com exclusividade, ele explicou ao juiz e ao promotor como despachava da cadeia.

A cela-escritório de Andinho não tinha mobília. Apenas uma prateleira, além de três camas de concreto protegidas por cortinas, onde ocorriam as visitas íntimas; uma TV de 14 polegadas; um vaso sanitário e uma pia.

O depoimento de Andinho à Justiça comprova que ele transformou sua cela na P-2 de Venceslau em escritório do crime. Diante do juiz Maurício Henrique Guimarães Pereira Filho e dos promotores de Justiça Amauri Silveira Filho e Gaspar Pereira da Silva Júnior, explicou como, além do tráfico, usou o celular para mandar jogar duas granadas num jornal de Campinas, em 22 de janeiro de 2009, porque não gostou de uma reportagem sobre seu casamento.

Por telefone, cuidava dos negócios ilícitos sem chamar a atenção de agentes penitenciários. Em meio ao banho de sol de três horas, misturado a centenas de presos, ou à noite, na cela, trancada a partir das 17h, passava recados a seus funcionários, a maioria gerentes de pontos de venda de drogas em Campinas.

Da prisão, Andinho autorizava a entrega de presentes, como motos e carros, para empregados, principalmente menores de idade. Mas também mandava atacar quem o contrariasse.

Aparato. Em fevereiro deste ano, uma escolta especial levou o criminoso do presídio, onde estão os presos mais perigosos do País, ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), à 5ª Vara Criminal de Campinas, para depor. A rotina no Fórum foi alterada e a segurança, reforçada. Contra ele pesam ao menos 17 condenações por sequestros, homicídios e roubos e também 31 mandados de prisão preventiva.

O sequestrador foi acusado e denunciado também pelo Ministério Público à Justiça pelo assassinato do prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, em 2001. Ele sempre negou participação no crime. Em 28 de janeiro do ano passado, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo o livrou de ir a júri pela morte do prefeito.

Acorrentado pelos pés e algemado, Andinho foi interrogado pelo juiz Pereira Filho, responsável pelo processo que apura o atentado contra o jornal. A ira do criminoso, que resultou no atentado do ano passado, teria sido despertada por um trecho da reportagem que falava sobre sua infância. Disse que ficou ofendido e, por isso, ligou para os parceiros de Campinas, ordenou o atentado ao jornal e exigiu o endereço do responsável pelo texto. Os artefatos não explodiram.

Doze pessoas foram acusadas de envolvimento no episódio. Uma delas é a mulher de Andinho e outra, a advogada dele. Elas negaram envolvimento no caso. No depoimento, o sequestrador afirmou que as duas não participaram do crime. O processo continua.

O preso, usando gírias, contou que tinha várias "biqueiras" (pontos de droga). Andinho negou ser integrante do PCC . Disse que entre seus funcionários havia "um monte de molecada". "Os moleques não tinham escola, eram doidos para ganhar um carro do ano e por isso viravam ladrões e cumpriam as ordens à risca."

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