Anatole em São Paulo

Claude Lévi-Strauss, da Missão Francesa que fundou a Universidade de São Paulo, em 1934, e seu primeiro professor de Sociologia, recebeu num vilarejo do interior o abraço de um velho, que exclamava, emocionado: "Ah! O senhor é francês! Ah! A França! Anatole, Anatole!". Restos de Voltaire e de Anatole France na cultura brasileira e no fundo do sertão, diz ele em Tristes Trópicos. Lévi-Strauss não era francês, era belga.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h04

É compreensível que esses resíduos da presença cultural de Anatole France persistissem entre nós como memória de algo que queríamos ser e não éramos, naqueles primeiros anos da República. O escritor francês, que receberia o Prêmio Nobel de Literatura em 1921, ganhara a admiração, sobretudo, dos jovens estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo por sua posição em favor dos direitos humanos. Ele apoiara o "Eu acuso!", de Émile Zola, e firmara a petição pela revisão do processo contra o Capitão Alfred Dreyfus, caluniado como espião alemão, por ser judeu, degradado e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

Em 1909, Anatole France foi à Argentina para proferir cinco conferências sobre Rabelais. Visitou-o Alfredo Pujol, da Academia Brasileira de Letras, para uma longa conversa. Apesar de restrições no contrato com os argentinos, no retorno à França desceu no Rio e fez uma conferência no Teatro Municipal sobre "O positivismo e a paz do mundo".

Às 5h45 da tarde de 4 de agosto, Anatole France desembarcava triunfalmente na Estação do Norte, no Brás, do rápido que o trouxera do Rio. Bondes especiais levaram os estudantes para recebê-lo. Três milionários puseram à disposição da comissão organizadora da visita seus automóveis e um quarto suas frisas no Teatro Santana, na Rua Boa Vista, onde faria sua conferência. Hospedou-se na Rotisserie Sportsman, onde é o Prédio Matarazzo, hoje Prefeitura. No dia 5, atravessou o Viaduto do Chá a pé e foi visitar o Theatro Municipal, em obras, recebido por Ramos de Azevedo. Admirou a fachada e a escadaria de mármore e foi para o terraço, que dá para o Anhangabaú, para ver a cidade, que se perdia no horizonte do arrabalde. A roça ainda era relativamente perto do centro. Na noite de 7 de agosto, fez sua conferência sobre "Pierre Lafitte - Um filósofo de bom humor", uma coletânea amena e anedótica sobre o sucessor de Auguste Comte, pai do Positivismo.

Na manhã de domingo, dia 8, um seleto grupo levou-o em trem especial ao Alto da Serra, hoje Paranapiacaba, para um banquete no restaurante da estação, que seria destruída por um incêndio em 1981. Dela restam só a torre e o relógio. Naquela noite, ele voltaria ao Rio de Janeiro no trem da Central, onde embarcaria para a França. Um quarto de século depois, um fazendeiro do interior ainda se lembraria dele, cheio de admiração.

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