Análise: Pedestres, ciclistas e motoristas devem aprender a conviver

Não há "ciclistas irresponsáveis" ou "motoristas imprudentes". Há pessoas irresponsáveis, pessoas imprudentes. Que, a depender do que estão usando para se movimentar, oferecem mais ou menos risco às outras

Carlos Aranha, Rede Nossa São Paulo

21 de agosto de 2015 | 03h00

Vamos falar de pessoas. Que se movimentam a pé, de carro, ônibus, moto, bicicleta, metrô, carrinho de bebê, patins, trem, skate. 

Há décadas, nas cidades brasileiras, somos maltratados todos os dias. Quem sai de casa com o próprio corpo sofre com o desenho errado da cidade, as travessias ruins, o barulho, a fumaça, o transporte demorado e a agressividade de outras pessoas que usam coisas grandes de aço, chamadas 'carros', para se movimentar. 

Não queremos ser maltratados, daí decidimos também usar coisas grandes de aço. Perdemos então saúde e vida ficando injustamente parados para sempre num trânsito que – sabemos, por questões lógicas de volume e espaço – nunca vai andar. 

Quando o importante é fazer pessoas (e não meios de transporte) se movimentarem, como se resolve a principal característica da cidade – 'muita gente em pouco espaço'?

Simples. Privilegia-se modos que permitem levar mais gente ocupando menos espaço: o transporte público coletivo e os modos ativos de deslocamento (a pé, bicicleta e outros). Para isso, é preciso restituir direitos: recuperar o espaço da cidade e devolvê-lo às pessoas. 

O 1/3 de pessoas que usa carro em São Paulo, ocupando 79% desse espaço público, descobre opções (ainda que só as use vez ou outra, quando tem menos tempo livre para ficar parado no trânsito). Tornam-se pessoas mais felizes também.

E ao se trombarem pelas ruas, seja qual for o meio de transporte, percebem que não há "ciclistas irresponsáveis" ou "motoristas imprudentes". Há pessoas irresponsáveis, pessoas imprudentes. Que, a depender do que estão usando para se movimentar – 1 tonelada de aço (carro), 20kg de alumínio (bicicleta) ou 80kg de carne (o próprio corpo) –, oferecem mais ou menos risco às outras.

Ainda que seja nada surpreendente, no brasileiro, a constante busca por demônios onde depositar a culpa por seus problemas, podemos assim começar a encarar a bela complexidade das relações humanas. Isso inclui olhar para o próprio umbigo, coisa que soa trabalhosa demais num país que, até ontem, entendia "cidadania" e "convívio" como um esporte curioso que se pratica na Europa. 

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