ANÁLISE: papa toca em ponto sensível da política de segurança de Cabral

"Quero encorajar os esforços que a sociedade brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo, incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à miséria. Nenhum esforço de 'pacificação' será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma". (Do discurso do papa Francisco, ontem, na favela Varginha, zona norte do Rio).

Marcelo Beraba, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2013 | 02h02

Em Varginha, uma das favelas de Manguinhos, o papa Francisco tocou em um dos pontos sensíveis da política de segurança implementada no governo Sérgio Cabral e conhecida como de pacificação. Este foi o termo cunhado pelo próprio governo para se diferenciar da política anterior, praticada por Anthony Garotinho e no início da gestão Cabral, de invasão das favelas e de confronto generalizado.

A política de pacificação tem como seu principal pilar as Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs. O sucesso inicial desta política projetou o seu mais importante artífice, o delegado José Mariano Beltrame, deu credibilidade ao governo Cabral, garantiu sua reeleição e a eleição e reeleição do prefeito do Rio, Eduardo Paes. Há dois pontos frágeis, no entanto, nesta política.

O primeiro é a lentidão na implementação dos programas sociais e econômicos que deveriam complementar as ocupações pela PM. Sem estes programas de inclusão, só a ocupação policial não será suficiente para garantir a paz nestas comunidades.

O segundo aspecto questionável na política de segurança de Cabral e Beltrame é a lentidão com que estas ocupações se estendem pelo território da cidade e do Estado. Na realidade, as favelas pacificadas até agora foram as da zona sul - onde mora a população mais rica e que recebe os turistas - e parte da zona norte, em torno do Maracanã. A lógica evidente tem sido a de garantir a proteção das áreas que receberam ou receberão os grandes eventos marcados para o Rio, como a Rio + 20 (ano passado), a Copa das Confederações (junho), a JMJ (até domingo), a Copa do Mundo (2014) e a Olimpíada (2016).

Esta política foi empurrando os comandos e quadrilhas armadas do narcotráfico e das milícias para as favelas e conjuntos habitacionais da periferia do Rio, para a Baixada Fluminense e para o interior do Estado. Nestas áreas não pacificadas os cidadãos, que já têm as piores condições sociais e econômicas, estão pagando um preço maior por causa da violência dos bandidos e dos abusos das polícias.

A política de segurança do governo Sérgio Cabral está na berlinda. A confiança que transmitia se esvai com a percepção de que não está preparada para lidar com as manifestações populares e de que a política de pacificação não está tendo o progresso que se esperava.

O discurso do papa reforça estas críticas. É um recado direto: "Nenhum esforço de 'pacificação' será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma".

* MARCELO BERABA É DIRETOR DA SUCURSAL DO RIO DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO,  EM COLUNA NO BROADCAST POLÍTICO

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