Análise: 'Não é pelo caos que vai se criar a reconstrução’

Especialista comenta chacina de Campinas

Ricardo Monezi, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2017 | 03h00

Estamos diante de um caso de distúrbio psicótico. A forma como ele se posiciona no e-mail é típica de alguém em um estado de sofrimento profundo, que não reflete só a questão pessoal, mas de todo o entorno. Isso reforça algo que temos visto atualmente. 

Muitas vezes, há casos de psicopatia que são afetados por eventos do dia a dia, e a pessoa fala de uma injustiça que vem não de uma questão específica. Ela não se sente perseguida por uma situação, mas por um sistema ou uma comunidade. Um coisa extremamente perigosa que estamos acompanhando na última década é o que chamamos de “somação de estímulos”, que consiste em uma determinada ação que gera estresse, angústia, ansiedade, depressão. A pessoa vê outros estímulos ao seu redor, que se somam ao primeiro, e passa a ver mais injustiças. O problema é que ela passa a olhar não só para si, mas para todos os eventos e começa a ficar paranoica. 

Outro ponto é a discussão de gênero, que vem se tornando uma guerra no País. As pessoas não tentam entender que essa é uma oportunidade para discutir a diversidade. O ódio vai se somando a cada estímulo e o indivíduo se sente acuado. Uma coisa clássica do paranoico é ter erros de julgamento, entrar em conflito. Esses julgamentos podem ter aumentado a raiva dele. E a expressão máxima de uma loucura extrema é, para exterminar seus problemas e da humanidade, eliminar outras pessoas. Assim, ele se torna um antiexemplo por não tentar resolver uma questão de forma lúcida. Tivemos uma década violenta, com o ódio sendo destilado, principalmente na internet. Vivemos uma conjuntura delicada e não se sabe o que levou esse homem a esse ato de insanidade. Mas a situação dele e o País não vão mudar na base da violência. Não é pelo caos que vai se gerar a reconstrução.

* RICARDO MONEZI É ESPECIALISTA EM MEDICINA COMPORTAMENTAL DA UNIFESP

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