Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Análise: 'Lixo atrapalha, mas não é o maior vilão das enchentes'

'É preciso uma forte ação para garantir a boa vazão do sistema de drenagem urbana, além da implementação de um conjunto de ações voltadas a aumentar a capacidade do espaço urbano em reter as águas de chuva'

Álvaro Rodrigues dos Santos*, Especial para o Estado

12 de fevereiro de 2020 | 05h00

Sem dúvida, as enchentes serão cada vez mais frequentes e de maior intensidade, na mesma proporção do crescimento das cidades. O lixo urbano costuma ser apontado como um dos responsáveis pelas enchentes. É uma associação equivocada, que joga a culpa na população e alivia a responsabilidade dos governos. O lixo atrapalha, mas não é o vilão das enchentes. Entender as verdadeiras causas é o primeiro passo para uma forte ação da sociedade na cobrança de responsabilidades. A equação hidrológica sempre será a mesma: o volume de chuva que a cidade joga sobre uma rede de drenagem que não consegue dar a devida vazão.

É natural que o crescimento das cidades ocorra primeiramente nas áreas de topografia mais suave, com a ocupação progressiva dos terrenos periféricos, de relevo acidentado e com solos normalmente mais vulneráveis à erosão. Empreendimentos de todos os padrões acabam ocupando esses locais com a utilização da terraplenagem pontual ou generalizada para produzir artificialmente áreas planas a fim de assentar edificações, o que implica exposição cada vez maior e prolongada do solo à erosão.

Com a ocupação em topografias mais acidentadas, a erosão leva ao assoreamento e à deposição de sedimentos nos leitos de rios e córregos. Além disso, em córregos principalmente, é frequente a existência de pontos de estrangulamento do curso d’água, por pontes, canalização mal projetada e ocupações irregulares.

O assoreamento chega a comprometer até 80% da já insuficiente capacidade de vazão das drenagens urbanas, constituindo-se hoje em uma das principais causas de nossas enchentes. Os materiais de assoreamento são compostos em 90% por sedimentos originados da erosão, e não do lixo. As operações de desassoreamento não têm sido contínuas e suficientes. A velocidade e a intensidade do assoreamento retiram do Rio Tietê, por exemplo, todos os benefícios hidráulicos conseguidos pelas dispendiosas obras de alargamento e de aprofundamento.

É preciso uma forte ação para garantir a boa vazão do sistema de drenagem urbana, além da implementação de um conjunto de ações voltadas a aumentar a capacidade do espaço urbano em reter as águas de chuva - como bosques florestados (parques e praças inteiramente arborizados, por exemplo), reservatórios domésticos e empresariais para acumulação e infiltração de águas de chuva - e tornar obrigatória a adoção de pavimentos drenantes em pátios e estacionamentos, bem como adotar calçadas ajardinadas e valetas drenantes etc. Complementarmente, é preciso um radical combate aos processos erosivos e ao lançamento irregular do lixo urbano e do entulho de construção civil.

*GEÓLOGO, EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO E GESTÃO DO INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS (IPT) E AUTOR DOS LIVROS “ENCHENTES E DESLIZAMENTOS"




 

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