Rafael Arbex
Rafael Arbex

Análise: Divulgação de dados da criminalidade deve ser impessoal

Secretário da Segurança é criticado por especialistas por ter parcelado anúncio das informações sobre os crimes na capital - antecipando os dados bons e adiando a divulgação do ruins

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2015 | 03h00

Em 1994, uma frase marcou a passagem do embaixador Rubens Ricupero no Ministério da Fazenda: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Ela acentuou na época a percepção de que os dados oficiais no País eram pouco confiáveis. Foi nesse contexto que Mario Covas assumiu o governo de São Paulo, em 1995. Para garantir transparência e credibilidade, o governador sancionou a lei da publicação trimestral dos dados de criminalidade. Covas foi mais longe: com o secretário da Segurança, o professor de Direito Constitucional José Afonso da Silva, divulgava dados mensais mesmo quando eram desfavoráveis. Candidato à reeleição, Covas via nos jornais recorde após recorde de roubos. Por pouco, não foi ao 2.º turno. Mas as estatísticas foram preservadas. E Covas ganhou.

Gestão após gestão isso se manteve - embora os números mensais por bairro tenham deixado de ser publicados de 2001 a 2010. Todos os dados saíam em um mesmo dia: bons ou maus. A gestão de Alexandre de Moraes mudou essa fórmula. Primeiro, antecipou dados positivos em andanças no interior. Agora, a novidade chegou a São Paulo: ele parcelou a divulgação dos dados da capital. Adiantou os bons - quedas de homicídios e roubos na capital - e deixou para depois os ruins - aumento de mortes na Grande São Paulo e interior.

Moraes é criticado por especialistas em Segurança, como o professor Ignacio Cano. Como fugir do fantasma da frase de Ricupero quando é Moraes em pessoa quem divulga os dados em vez de deixar isso para um órgão técnico, como ocorre no Rio? Seu antecessor - Fernando Grella - raramente aparecia na divulgação, o que a tornava impessoal, reafirmando o princípio de Covas de que a divulgação deve servir de prestação de contas à sociedade, independentemente do calendário eleitoral.


Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.