Análise: Combate ao crime precisa de mudança

Piora dos índices mostra que a eficiência no combate ao crime esbarra em problemas antigos

Bruno Paes Manso e Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2013 | 00h07

A criminalidade recrudesce no Estado. E toda vez que isso acontece, as autoridades procuram explicações na crise econômica, no inverno ou nos ataques de uma organização criminosa. Os homicídios aumentaram 18% e os latrocínios 81% na capital no primeiro trimestre deste ano. Crimes contra o patrimônio, como o roubo e o roubo de carros, também registraram crescimento. O mesmo aconteceu com os dados do Estado. A tendência, desta vez, é de alta na capital e não de queda como foi em janeiro e em fevereiro.

A atual piora dos índices nos permite concluir que o combate à criminalidade esbarra hoje mais em problemas estruturais da polícia do que em questões externas. E um dos maiores nós de nossa segurança está nas mãos da Polícia Civil. Menos de 2% dos crimes de autoria desconhecida da cidade de São Paulo são esclarecidos. Aqui o crime não tem punição. Esta é a única certeza que conta para os bandidos e para os grupos de extermínio, muitos dos quais formados por policiais militares. A impunidade só faz com que os índices permaneçam como estão ou piorem. As delegacias da cidade, que se dedicam à prática burocrática do boletins de ocorrências, sofrem com falta de pessoal, principalmente de delegados.

Há um outro obstáculo dramáticos à eficiência policial. Trata-se da corrupção. Um policial bandido tem um efeito perverso no mundo do crime. Ele prefere o ladrão em liberdade, pois só assim o criminoso terá dinheiro para lhe pagar a propina exigida. E aonde o bandido vai arrumar o dinheiro para o corrupto? Assaltando, furtando, vendendo drogas, combustível batizado, explorando a prostituição e o jogo de azar ou qualquer outra atividade ilícita.

O que é ruim fica dramático quando a corrupção atinge chefias. A história mostra que o  delegado que pede dinheiro aos seus subordinados em troca de mantê-los no cargo faz com que o crime se transforme em uma piada. Em defesa de sua instituição, os policiais civis devem romper a lei do silêncio, a omertà que às vezes transforma em pária o policial que denuncia os colegas. Só assim acabará a desenvoltura com que, de tempos em tempos, os corruptos agem.

Serpico, aquele policial interpretado no cinema por Al Pacino, não seria popular em São Paulo assim como não o foi em Nova York. São essas algumas das razões estruturais que a cúpula da Segurança Pública precisa atacar. Sem isso,  continuaremos assistindo à dança dos números sem saber explicá-los ou sem saber como mudá-los. Seremos levados pela corrente. Em silêncio.

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