ANÁLISE: Bergoglio decodifica as vozes de nossas ruas

A realização da Jornada Mundial da Juventude serve de palco para uma série de leituras e enfoques. Um dos principais diz respeito a uma nova Igreja. Fosse o evento protagonizado por Bento XVI, não teríamos tantas novidades. Ao subir as escadas do avião que o trouxe ao País, Bergoglio já mostrava o carisma. Algo natural, demonstrado desde a primeira aparição como pontífice eleito. Em terras sul-americanas, impressiona sua capacidade de dialogar conosco.

Humberto Dantas,

25 Julho 2013 | 02h12

Após meio dia de viagem, o papa fez um discurso emocionante no Guanabara. Começou dizendo que a forma de se relacionar com os brasileiros começa pelo coração. Acertou em cheio. Faltou apenas falar do caráter positivo da cordialidade de Sergio Buarque de Holanda. Sem perder o ritmo, ontem preferiu aproximar-se de Nossa Senhora a ir a Brasília por convite de outra senhora. Optou pela padroeira. Olhar marejado, sua emoção ao contemplar a santa comoveu. Alguns passos e o toque. A intimidade respeitosa com a imagem, característica de um religioso acalentador, humano e carismático.

Na homilia, começou afirmando a felicidade de estar na casa da mãe dos brasileiros. E manteve-se próximo do que chamou de valores para um mundo mais justo: esperança, alegria e um Deus capaz de surpreender.

O que Francisco fez foi decodificar parte das vozes de nossas ruas, a despeito do caráter laico do País, de parcela da sociedade não ter afeição à Igreja ou esperar dela as respostas. O papa parece mais capaz de compreender nosso descontentamento do que os políticos. No continente, só o presidente do Uruguai seria comparável. Isso porque, quando criticou o materialismo e o vazio dos exageros do consumo, Francisco demonstrou o básico: coerência. Uniu ação à pregação: usa modelo quase popular de carro, viaja em avião de linha, veste o simples, aproxima-se dos cidadãos, afasta-se das regalias. A simplicidade e a aversão a protocolos custosos e distanciadores é parte do que clamamos. Horizontalizar a relação, enfraquecer barreiras e respeitar um estilo menos dispendioso de vida. É isso. São valores! Reforma política, plebiscito e constituinte especial: tudo é surdez social. A esses maus leitores, a dica: leiam Francisco.

* HUMBERTO DANTAS É CIENTISTA POLÍTICO,  PROFESSOR DO INSPER E COLUNISTA DA RÁDIO ESTADÃO

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