ANÁLISE: Bergoglio assume o desafio de Ratzinger e de João Paulo II

A citação a Bento XVI, feita por Francisco na homilia da missa em Aparecida, não foi formalidade ditada pelo lugar e pela circunstância. "O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro": uma frase mística e cristocêntrica, que afirma a importância de Cristo tanto na esfera religiosa quanto nas outras dimensões da vida. Sem a experiência religiosa do encontro com Cristo, a pessoa não tem a esperança de superar o medo do mal e da morte, a gratuidade que liberta o amor do egoísmo, a solidariedade incondicional que permite construir um futuro melhor para a sociedade. Trata-se de afirmação polêmica para um mundo laico que vê a religião como muleta psicológica facultativa, bem ao estilo de Bento XVI. E endossada por Francisco.

Francisco Borba Ribeiro Neto,

25 de julho de 2013 | 02h10

A homilia se entrelaça com o discurso no Rio. Francisco não foi a qualquer hospital, mas a um "polo de atendimento integral a dependentes químicos". Ali, disse que a função da Igreja não é condenar, mas prestar solidariedade que gere esperança e força necessárias à superação. Tanto em Aparecida quanto no Rio, fala da moral católica e de seus valores maiores: solidariedade, fraternidade, amor, alegria, esperança. Não um moralismo de condenação e fechamento, mas uma moral positiva. Uma moral em que os vetos existem, mas ganham seu real sentido de defesa do amor e da realização - afinal, o mal sempre deverá ser condenado se queremos o bem.

Reapresentar a moral católica dessa forma positiva era uma das grandes lutas de Bento XVI e João Paulo II. Mas nenhum conseguiu quebrar a mentalidade hegemônica na sociedade, que vê no catolicismo apenas proibições. E esse será um dos maiores desafios de Francisco: mostrar ao mundo a moral católica como amor e esperança. Seus antecessores, lá na vida após a morte ou na oração reclusa, torcem por ele!

* É COORDENADOR DO NÚCLEO DE FÉ, CULTURA DA PUC-SP

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