Análise: Aparecida: a tradição da Igreja e a cultura latino-americana

Aparecida é um lugar com um importante significado histórico tanto para o catolicismo brasileiro quanto para o papa Francisco. Em uma época em que os católicos no País vêm diminuindo, a Basílica bate recordes de peregrinos todo ano - mais de 11 milhões em 2012. A Basílica vem recebendo um novo acabamento interno, sendo chamada por alguns de "Capela Sistina brasileira", pois integra elementos da arte contemporânea, da tradição católica universal e da cultura popular latino-americana, numa síntese tão característica de nosso contexto cultural quanto a obra de Michelangelo foi do seu tempo. Por isso, o santuário representa um encontro entre cultura latino-americana e tradição da Igreja que é cara ao papa.

Francisco Borba Ribeiro Neto,

24 Julho 2013 | 02h03

Mas não só isso. Foi lá que aconteceu a 5.ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe (Celam), cujo relatório geral ficou a cargo do então cardeal Jorge Bergoglio. Os participantes da Conferência costumam lembrar o forte impacto causado a eles pela piedade popular demonstrada pelos romeiros e pelo clima de oração do Santuário. Aparecida é um lugar em que a religiosidade popular esteve presente e iluminou o trabalho dos bispos e de Bergoglio. Por fim, tem um forte significado pessoal para o novo papa, pois ele próprio é um devoto de Nossa Senhora, um homem que vai para a Aparecida também como peregrinação pessoal.

Bergoglio se alinha à corrente do pensamento que sempre viu a opção pelos pobres vinculada à construção de um tecido social e cultural que forma o que poderia ser chamado de "povo latino-americano". Acredita que a transformação social, a justiça e a solidariedade não podem ser construídas no continente sem a referência à matriz da religiosidade popular latino-americana. Aparecida é a concretização de tudo isso, em pedra, tijolo, cerâmica do templo e carne dos peregrinos.

* É COORDENADOR DO NÚCLEO FÉ E CULTURA DA PUC-SP

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