ANÁLISE: antiliberal e crítico do marxismo, MPL usa multidão como arma

Por mais cabeluda que seja a pergunta, os integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) têm uma resposta na ponta da língua que parecem acostumados a dar faz anos. "Como justificar o vandalismo?" pergunta um jornalista. "A culpa é do Governo e da Prefeitura, que não baixam a tarifa e estimulam a revolta popular". Nascido no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, o MPL acredita que a política deve ser feita pela base, privilegiando formas de atuação direta em detrimento dos partidos tradicionais e das práticas institucionalizadas da democracia representativa. Assim, sua visão de mundo os coloca na esquerda do espectro político, entre os adversários do liberalismo econômico e os críticos do marxismo ortodoxo; enfim, eles pensam que "um outro mundo é possível".

Bruno Paes Manso e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2013 | 02h14

Nascidos na sociedade pós-moderna, sem fábricas, com Estados em crise, os integrantes do MPL inspiram-se em filósofos autonomistas, como Toni Negri. Expoente do grupo de extrema-esquerda italiano Potere Operaio nos anos 1970, Negri defende a autonomia em relação às instituições, um poder descentralizado e marcado pela autogestão. O MPL também tem entre suas referências o pensador Cornelius Castoriades, para quem a autonomia pessoal apenas pode "ser concebida como empreitada coletiva". É por isso que, indagados sobre o que é seu movimento, os líderes do MPL trazem na ponta da língua outra resposta: "Somos uma organização horizontal e autônoma".

Lideranças, carros de som e partidos que monopolizam o discurso não os representam, mas a massa e o coro das ruas ampliam as vozes e tornam a luta coletiva. O coletivo, aliás, o anônimo, o impessoal dão forma ao grupo, onde não deve haver espaço para ego inflados. Vaidosos "não passarão".

A iconoclastia faz com que as máscaras de V de vingança e os panos cobrindo o rosto que escondem a individualidade dos integrantes se popularizem nas passeatas, além de serem instrumentos úteis que permitem aos radicais praticarem a "arte da desobediência civil" impunemente. A multidão tem papel importante. Trata-se de uma nova arma, articulada pelas redes sociais. As "forças democráticas" devem se opor a novas formas de tirania dos Estados modernos que, segundo eles acreditam, limitam a participação política e popular ao transformar o espaço público em um campo de batalha, no qual a política é tratada como extensão da guerra e não o contrário, como pensou o teórico Carl von Clausewitz.

Essa massa libertária onde há espaço para coletivos com diferentes perfis e demanda, inclusive os anarquistas, criam um clima de tolerância que abre os braços para vários tipos, o que acaba às vezes dificultando o controle da pauta dos protestos. Nas manifestações, pedia-se de tudo, desde condenação da PEC 37 a causas gays e de liberação das drogas. A violência como reação às agressões do Estado se justifica. O livro Como a não violência protege o Estado, de Peter Gelderloos, é uma influência, principalmente dos Black Block, a tropa de choque dos protestos, com identidade anarquista. O vandalismo politizado de alguns manifestantes, que expôs o despreparo da PM e dos governantes, acabou sendo decisivo na vitória das manifestações.

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