Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

ANA eleva tom contra gestão do Cantareira

Agência revelou e-mail no qual São Paulo reduziria captação; Estado diz que se tratava de avaliação

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2014 | 03h00

Quatro dias após o rompimento no comitê anticrise do Sistema Cantareira, os governos federal e paulista trocaram acusações públicas sobre o enfrentamento da seca nos reservatórios.

Em evento na capital, o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, disse que a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) precisa ter “mais coragem” para mostrar à população a “gravidade da situação” no manancial e divulgou cópia de um e-mail no qual o secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce, apresenta um cronograma de redução de retirada de água do sistema que ele depois negou haver acordo. Arce rebateu dizendo que a ANA cortou menos água para o Rio e criticou o que classificou como “vazamento seletivo” de informações.

No e-mail, enviado por um assessor da secretaria no dia 25 de agosto e assinado por Arce, o secretário afirma haver “entendimentos” para uma redução de 1,6 mil litros por segundo a partir do dia 30 deste mês, chegando a uma retirada de 18,1 mil litros por segundo, e de mais mil litros por segundo a partir de 31 de outubro, atingindo a captação de 17,1 mil litros por segundo. Atualmente, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) retira cerca de 19 mil litros por segundo do sistema, que opera com 7,8% da capacidade, a mais baixa da história.


Andreu divulgou o e-mail após Arce ter negado reiteradamente que houvesse acordo para as reduções. Por causa do impasse, o presidente da ANA, que é um dos órgãos reguladores do Cantareira, anunciou a saída do comitê anticrise criado em fevereiro com o governo Ackmin (PSDB) para monitorar o sistema e a crise hídrica. Segundo Andreu, o governo Alckmin “não aponta a gravidade da situação concretamente para a população”. “Nós não temos ainda em mãos, apesar de termos insistido muito, um plano de contingências por parte da empresa de saneamento, que possibilite dialogar com a população sobre quais são as consequências de eventuais cenários”, disse.

De acordo com o presidente da ANA, a Sabesp tem apresentado “sistematicamente um plano de operação, sempre buscando mais água do volume morto do Sistema Cantareira”. Em maio, a Sabesp iniciou a captação de 182,5 bilhões de litros da reserva profunda das represas e quer ampliar a cota em mais 106 bilhões de litros. “E, se não chover o esperado até março, como será em abril? Eles não respondem”, afirmou Andreu.

“Um plano de contingências tem de ter o seguinte: e se essa água não tiver, quais são as alternativas. Tem de dizer isso com clareza à população”, disse o diretor da ANA, que é vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, do governo Dilma Rousseff.

Resposta. Arce disse que o governo Alckmin “não está escondendo nada de ninguém”. “Acho que as pessoas estão informadas. A não ser que não leem o que vocês (jornalistas) escrevem, que não ouvem o que a gente fala. Nunca um assunto foi tão debatido quanto este”, disse o secretário, que criticou a ANA por “não dar esse tratamento ao Rio de Janeiro”, que teve uma redução menor na captação do Rio Paraíba do Sul, apesar de a crise de estiagem também ser histórica na região.

“Não estamos escondendo nada de ninguém. Não preciso decretar uma (...) Olha, tem racionamento, está na cara que existe problema. As informações são dadas”, afirmou Arce.

A assessoria de Arce ainda, em nota, lamentou “que um órgão federal recorra ao vazamento seletivo de uma comunicação interna, que refletia apenas um dos cenários em avaliação”. A pasta disse que mantém a disposição ao diálogo e espera que a ANA volte ao comitê.


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