Amor vira moda nos muros de SP, mas não conquista todos

Para autores, 'pichações do bem' trazem energia positiva à cidade; pela lei, qualquer ato do tipo é considerado vandalismo

, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2010 | 00h00

O artista Ygor Marotta, 24 anos, não é autor de nenhuma música da moda. Não é best-seller, nunca escreveu um diálogo de novela. Mas viu uma frase sua cair na simpatia popular, repercutir na internet e até virar tema da coleção de uma marca de roupas. E não era para menos, afinal, Ygor escolheu as ruas de São Paulo para divulgar seu pedido. Um tanto romântico, um tanto transgressor, com um spray de tinta na mão, ele implora: "Mais amor por favor".

Não é o único. Aparentemente, a moda é falar de amor nos muros, paredes e tapumes da capital paulista. Às vezes, a nova onda vem com uma ordem: "Ame mais" ou "Ame seu amor". Outras, como um aviso de quem já perdeu a paciência - "O amor é importante, p..." O próprio Marotta começou mandando as pessoas amarem mais. Agora, pede de joelhos. "Coloquei o "por favor" pela delicadeza que pede quando escrevo na rua. Queria agredir menos", conta o artista.

Mas ainda agride. "Nunca vão olhar para pichação com carinho", diz ele. "Concordo com muitos que dizem que é sujo. Se não for para passar uma mensagem positiva, sou contra." A letra caprichada é usada para se destacar. "É diferente de usar tags com nomes ou letras irreconhecíveis, que só servem para marcar presença."

A discussão é longa. Segundo a diretora de Paisagem Urbana da SP Urbanismo, Regina Monteiro, não dá para entrar no mérito de a mensagem ser positiva ou negativa - a questão é se é ou não autorizada pelo dono do muro. "Claro que ler uma frase de estímulo é mais interessante que ver uma caveira pintada", compara Regina. "Mas o ideal é que a propriedade alheia não seja vandalizada nem de uma forma nem de outra."

Risco. A simpatia que a frase desperta também é controversa. "Se não tiver os dois lados, a intervenção não funciona, não gera debate", diz Ygor. Do mesmo jeito que vê sua frase registrada em fotos no Flickr e republicada no Twitter, quase sempre com comentários elogiosos, conhece também as críticas. Outro dia, leu em um blog a opinião de um grupo que acha que, no fundo, ele quer é ser celebridade. "Existem formas melhores de ser famoso sem tanto risco."

O risco é de 3 meses a 1 ano de prisão. E não importa se é uma frase ou um desenho bonitinho. "Se eles pedem, nem entramos no mérito da estética. Mas o bacana, parece, é fazer na marginalidade", diz Regina Monteiro. Inconfesso, o mais eloquente espalhador de amor da cidade, o do "Amor é importante", nunca apareceu. Há quem diga que se trata de um poeta, que teria as iniciais R.G, que seria até um publicitário. Continua o mistério.

Autoria. Já Ygor decidiu assumir a autoria do trabalho. Assim também fez o webdesigner Samir Mauad, de 30 anos, autointitulado precursor dessa onda subversiva de romantismo.

Como o colega, Samir suavizou o slogan. Depois de muitos "Odeie seu ódio", resolveu deixar a raiva de lado. "Não queria ser conhecido como o cara do ódio. Daí veio "Ame seu amor", que passa a mesma mensagem de outra forma", diz o webdesigner. E o amor roubou a cena. "Hoje, faço 300 "ame" para 100 "odeie"." / N.C.

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