Amor e luto entre animais

Se você pisar num cachorro, ele recolhe a pata. Ninguém duvida que o cachorro sentiu dor. Reações semelhantes ocorrem em muitos animais. Até uma ameba se retrai ao ser cutucada. E o sofrimento, esse sentimento complexo que conhecemos tão bem, será que existe em animais? Para concluir que um cachorro sofre é preciso acreditar que ele produz reflexões elaboradas, capazes de gerar sofrimento. Sem saber o que passa pela cabeça de um cachorro é difícil avaliar se ele realmente sofre ou somente sente dor. No caso de uma ameba, a resposta parece simples, ela sente dor, mas não sofre. No nosso caso, sentimos dor e também sofremos.

MAIS INFORMAÇÕES: HOW ANIMALS GRIEVE. BARBARA J. KING. THE UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS 2013, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2015 | 02h02

O problema da existência de emoções complexas em animais tem passado ao largo do interesse dos cientistas. Uma das razões é que até recentemente se acreditava que eram exatamente essas emoções que separavam o ser humano dos outros animais. Só os humanos teriam o privilégio (ou ônus) de serem tomados por emoções. Além disso se acreditava que esses sentimentos estavam intimamente relacionados à consciência, uma propriedade que parecia existir somente no nosso cérebro. Mas agora isso está mudando.

Quem convive com animais jura que eles são capazes de sentimentos complexos. Um bom exemplo são os cães que ficam sobre o túmulo do dono. A maioria das pessoas vê nesse comportamento uma demonstração de amor.

Mas, para os cientistas, muitos desses comportamentos podem ser resultado de processos simples, selecionados para induzir no ser humano respostas que aumentam a chance de sobrevivência do animal (vide Um parasita do afeto humano, no Estado de 27 de setembro de 2006). Afinal, o cão que fica no túmulo do dono pode simplesmente estar com fome ou desorientado, nós é que vemos nessa atitude um ato de amor ou afeição.

O que está mudando é que comportamentos indicativos de emoções complexas têm sido descritos em animais selvagens como parte de seu repertório normal. São girafas que organizam verdadeiros velórios em volta de um defunto, fêmeas de macacos que continuam a carregar os filhotes mortos por dias ou golfinhos que param de se alimentar durante o luto.

O que chamou a atenção dos cientistas é que esses comportamentos pareciam não ser adaptativos. Ao contrário do cão, que ao demonstrar sua carinha de coitado nos induz a alimentá-lo, o comportamento de luto em animais selvagens aparentemente não traz nenhuma vantagem para a sobrevivência do indivíduo. Muito ao contrário. Na maioria dos casos, esses comportamentos diminuem as chances de sobrevivência do indivíduo e deveriam sofrer uma forte seleção negativa. Um gene que diminui a vontade de um tigre de caçar tende a ser eliminado, pois seus portadores tendem a morrer de fome. Pelo mesmo raciocínio, um golfinho que não vela o filho teria mais chance de sobreviver e reproduzir do que um golfinho que fica sem comer. Com o passar dos milênios, esses comportamentos deveriam ter sido eliminado pelo processo de seleção natural. Mas não foram.

A persistência desses comportamentos parecia não fazer sentido do ponto de vista evolutivo. Mas agora surgiu uma explicação. Os cientistas estão avaliando a hipótese de que esses comportamentos complexos são, na verdade, um efeito colateral de características que têm uma grande vantagem evolutiva. É fácil imaginar que ligações afetivas complexas e duradouras são vantajosas. Afinal, é o amor da mãe macaco pelo filhote que garante que ela nunca o abandone. Nessa nova interpretação, a dor da separação, prejudicial ao animal, é simplesmente um efeito colateral de um fenômeno de alto valor adaptativo, o amor, entre os animais. Amor e luto seriam duas faces de uma mesma moeda. É semelhante ao que ocorre com os remédios: eles trazem benefícios, mas o custo desses benefícios são os efeitos colaterais com os quais somos forçados a conviver se queremos nos curar.

Desse ponto de vista, quanto maior for o efeito colateral tolerado pela espécie, maior é a intensidade e importância do fenômeno principal. Quanto maior a dor e o luto, maior o amor que deve existir do outro lado da moeda. Com base nessa hipótese talvez seja possível estimar a capacidade dos animais de sentirem emoções complexas estudando os efeitos colaterais causados por esses sentimentos. O intrigante é como uma associação tão bem conhecida no universo emocional dos seres humanos levou tanto tempo para ser reconhecida pelos estudiosos do comportamento animal.

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