Amolegas?

Mal abriram para perguntas na enorme tenda da Fliporto, a festa literária internacional de Olinda, e um camarada lascou lá da plateia:

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h03

- Tu gosta de amulegá?

Amulegá? - pensei eu com meus botões, ou melhor, meu zíper. O debate do qual participava era sobre palavras - palavras bonitas, feias, curiosas, bizarras -, assunto em que estou longe de ser autoridade, mas que desde sempre cultivo com aplicação de maníaco. Comigo estavam o colega português J. Rentes de Carvalho e, na mediação, o jornalista Sílio Boccanera. E o camarada com aquela esquisitice verbal, querendo saber se gosto de amulegá. Convinha ser prudente:

- Se isso é uma proposta, a resposta é não!

A maré de gargalhadas não inibiu o perguntador, que cuidou de esclarecer minha ignorância, especializada em pernambucanismos. Amolegar - concedeu ele a meus ouvidos de forasteiro, repondo o O no lugar do U, como pede a ortografia - significa apalpar. Na verdade, fui entendendo, é um pouco mais que isso: premer, dar uns apertões, mas na maciota, carinhosamente, à beira ou em plena bolinação - e nesse ponto meu diligente professor espalmou as mãos e as fechou em concha, pondo-se a massagear imaginários porém inequívocos hemisférios. Ah, então é isso... Eu não tinha ligado o nome à pessoa, quer dizer, à coisa.

Sim, é isso - mas não só, soube mais tarde, quando, encerrado o debate, me vi no centro de um grupo de simpáticos nativos. Amolegar é também, me explicaram, o ato de apertar a manga para liberar o suco, de modo a que possa ser bebido, mamado, através de um furo que se faz na casca. Será mesmo um pernambucanismo, como apressadamente concluí? Novidade é que não é, pois seu primeiro registro escrito, vejo aqui no Houaiss, data de quase 200 anos. Tem raiz no latim, vulgar porém latim: vem de admollicare, que significa tornar mole, brando. Tu podes amolegar não só manga como tudo o que amolegável seja, de seios a inocentes travesseiros.

O verbo, fui aprendendo, não se aplica apenas a coisas e seres inanimados - alguns de seus objetos, ao contrário, são animados, eventualmente animadíssimos. Não lhe falta uma conotação de tropical malemolência, de safadeza mesmo - ao menos em Olinda, a julgar pelo gestual lúbrico do camarada a me interpelar acerca de supostas amolegações. Não lhe falta uma conotação de tropical malemolência, de safadeza mesmo - ao menos em Olinda, a julgar pelo gestual lúbrico do camarada a me interpelar acerca de supostas amolegações. Numa abordagem sem rodeios, poderia ser esta a pergunta crucial: amolegas? Consideradas as consequências, talvez fosse o caso de sugerir ao Criador um 11º mandamento: Não amolegarás a mulher do próximo.

Pode um homem ser amolegado? - desinteressadamente perguntei. Claro, também as mulheres podem fazê-lo no sexo oposto, por sua conta, risco e deleite. Esqueci de perguntar se para tal eventualidade existiria um verbo específico, algo como "enduregar".

* * *

Se voltei da Fliporto com o "amolegar" na bagagem, em retribuição deixei lá, para ver se pega, o adjetivo "jonjo". Ainda não dicionarizado, nem por isso deixa de andar nas bocas - não muitas, mas não quaisquer -, e até na boa prosa literária, incrustado que está em Abacaxi, o suculento romance de Reinaldo Morais, de 1985.

Não tenho notícia de que compareça em outro texto, e se assim for estaremos diante de algo raríssimo, nada menos que um hápax - "palavra ou expressão", ensina o Houaiss, "de que só existe uma única abonação nos registros da língua". A não ser, naturalmente, que ao escrevê-lo aqui eu lhe esteja tirando a virgindade lexicográfica.

O que jonjo quer dizer? O adjetivo qualifica o jubiloso amolengamento de certa particularidade da topografia corporal masculina após eventos exaltantes, ou na frustrante impossibilidade de performá-los. Por extensão, um estado de lassidão física não de todo ou nem um pouco desagradável. E mais não digo. Se não lhe basta, leia o romance do Reinaldo, que por várias razões recomendo, com especial atenção à página 321 de Tanto faz & Abacaxi.

Mas agora diga lá, ainda que mal pergunte: tu gosta de amulegá?

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