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Amiga é obrigada a deixar alpinista ferido nos Andes

Para especialistas, a chance de o carioca Bernardo Collares ser resgatado com vida em montanha da Patagônia é muito remota

Marcelo Auler, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2011 | 00h00

O montanhista brasileiro Bernardo Collares Arantes, de 46 anos, sofreu acidente na segunda-feira, ao escalar o Monte Fitzroy, no povoado de El Chaltén, na Patagônia, sul da Argentina. Bernardo escalava o monte com a amiga Kika Bradford, que foi obrigada a deixá-lo na montanha, com hemorragia interna e provável fratura da bacia, para tentar buscar socorro. Família e amigos consideram remota a chance de ele estar vivo.

O tempo ruim e a falta de helicóptero em El Chaltén impediram qualquer tentativa de resgatar o presidente da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro (Femerj).

Amigo de Bernardo e de Kika, o também montanhista André Ilha considera um verdadeiro feito ela ter conseguido descer o monte sozinha, sob nevasca.

"Os dois sabiam que a única chance que ele tinha era ela descer e pedir ajuda. A descida dela foi inacreditável. Sem o saco de dormir que deixou com ele, ela dormiu no meio da parede, debaixo de neve. Depois, atravessou a geleira cheia de buracos perigosos", contou Ilha após falar com Kika, que chegou à base da montanha apenas um dia depois.

Em estado de choque e muito cansada, ela está em El Chaltén, onde o namorado, Juan Sanches, tem uma pousada. Segundo ela disse a Ilha, com uma melhora do tempo seria possível resgatar o corpo de Bernardo.

Mas os amigos acreditam que ele não tenha sobrevivido além de terça-feira. "Todo mundo que vai ali sabe que é uma escalada extremamente aventurosa e é absolutamente impossível o resgate por terra no ponto em que ele caiu", explica Ilha.

Queda. O acidente ocorreu às 10h, quando Bernardo e Kika, sem atingir o cume do monte que é considerado de difícil acesso, iniciaram o retorno. Kika chegou a um platô, mas quando Bernardo descia pela mesma Via Afanassief (caminho de 1.800 m na montanha que leva o nome do francês Jean Afanassief, que primeiro passou por ali, em 1979), a corda do rapel que usava escapuliu de onde estava ancorada e ele caiu de uma altura de 15 metros.

Com o choque, sofreu uma possível fratura da bacia e hemorragia interna. Ficou com a região afetada completamente roxa e inconsciente.

Kika ficou ao seu lado por quatro horas, período em que ele intercalou momentos de consciência e inconsciência. Das poucas vezes em que se mexeu, chorou de dor. Depois, em comum acordo, decidiram que ela tentaria buscar socorro.

Ela chegou à base da montanha na terça-feira à tarde e só depois de atravessar a geleira encontrou o namorado que tinha saído em busca de notícias por causa do mau tempo.

Todos concluíram que não havia como fazer o resgate. "Seria dificílimo chegar aonde ele estava antes da próxima tempestade. E, se chegassem, não teriam como descer, era preciso uma maca rígida", explica Ilha.

Família. Em busca de informações sobre o irmão, Érica Collares chegará hoje ao povoado de El Chaltén, na Patagônia.

REAÇÕES

Robertinho Izidoro

@BettoDZ6

"Um dia triste até pelo nosso companheiro Bernardo Collares... Que descanse em Paz, vc chegou à montanha mais alta!"

Rui Seabra

@ruicevap

"Que os anjos da montanha te iluminem e confortem seus amigos e familiares! Qualquer atleta sente tudo isso"

Monique Andrade

@moniquesoleil

""É bom ter um fim para a jornada, mas é a jornada que importa no fim". (...) El Chaltén é a sua morada"

PONTOS-CHAVE

Janeiro de 1998

Ao tentar escalar o Monte Aconcágua, na Argentina (o ponto mais alto da América do Sul), o alpinista brasileiro Fuyihara Vesio cai em uma fenda na rocha e morre.

Novembro de 2005

Empresário paranaense e alpinista amador Marcos Luszczynski some no Mont Blanc, em Chamonix, na França. Após um mês de buscas, corpo não foi encontrado pelas equipes

de resgate.

Maio de 2006

O primeiro brasileiro a chegar ao cume do Monte Everest sem precisar do auxílio de cilindros de oxigênio, Vitor Negrete, de 38 anos, morreu durante a descida.

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