Amiga atingida no rosto, Nayara havia sido libertada na terça

Nayara voltou ao caitiveiro com permissão da polícia, possivelmente atendendo a exigência do seqüestrador

da Redação,

17 de outubro de 2008 | 21h09

Quando o seqüestro da adolescente Eloá, de 15 anos, completava 70 horas, na manhã de quinta-feira, Nayara, amiga da adolescente que havia sido feita refém no início do seqüestro mas que tinha sido solta na noite de terça-feira, voltou ao apartamento para tentar negociar o fim do seqüestro. Com a invasão do apartamento pela polícia, 30 horas mais tarde, Nayara  foi atingida por um tiro no rosto e agora passa por cirurgia. Veja também: Eloá levou dois tiros e corre risco de mortePolícia invade, reféns são levadas e seqüestrador é preso 'O que deu errado foi o tiro que ele deu na menina', diz coronel Armas de policiais e seqüestrador são apreendidas para períciaConfira cronologia do seqüestro  Seqüestro em Santo André é o mais longo registrado em SPPai de Nayara diz que foi ‘expulso’ pela PM de escolaJovem disse que ia matar ex-namorada se polícia invadir o local Galeria de fotos do seqüestro   Antes mesmo da invasão, o retorno de Nayara ao apartamento, aparentemente atendendo a uma exigência do seqüestrador e com permissão da polícia, havia sido classificado como "erro grosseiríssimo" pelo coronel da reserva José Vicente da Silva, diretor do Instituto Pró-Polícia e ex-secretário Nacional de Segurança Pública. "Colocar mais um inocente em risco é a última coisa que poderia ser feita." Ele não foi o único a condenar a concessão feita pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar. "Não entendi como permitiram a volta de uma refém menor de idade ao ambiente de risco", diz o capitão da reserva Rodrigo Pimentel, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PM do Rio e co-autor do livro Elite da Tropa - que deu origem ao filme Tropa de Elite. "Foi uma decisão pouco responsável." Policiais que já atuaram no Gate e hoje ocupam outros postos também criticaram a maneira como o processo vem sendo conduzido. "No processo de negociação é preciso haver alguns limites", defende um deles. "É inadmissível colocar a vida de alguém em risco. E, pior ainda, menor de idade." Como o comando da PM não havia autorizado ninguém a se manifestar antes do fim do caso, eles pediram para não ter seus nomes revelados. O Gate é inspirado nas polícias especializadas norte-americanas e foi criado em 1988. É uma tropa da PM acionada em ocorrências que exigem treinamento específico e equipamentos especiais. Seus policiais são chamados para atuar em ações de combate ao terrorismo, em operações com explosivos, rebeliões em presídios e ações com criminosos armados em locais de difícil acesso ou com reféns.  Comandados pelo capitão Adriano Giovaninni, os cerca de 70 integrantes da tropa têm sua base no bairro de Vila Maria, na zona norte da capital. São requisitados para casos complexos. Operacionalmente, dividem-se em três equipes. Em casos que levam dias, como o de Santo André, um grupo dá lugar a outro.  É árduo o caminho para quem quer ingressar na "tropa de elite" paulista. Cerca de 200 policiais militares, todos os anos, candidatam-se, voluntariamente. Neste ano, apenas sete conseguiram passar por todas as fases. Os dois dias de testes de aptidão física - natação, corrida, séries de abdominais - já costumam eliminar 90% dos concorrentes. Os que passam dessa fase fazem um rígido curso de 35 dias, com simulações de situações limite com explosivos, reféns e outros obstáculos. Só então passam a fazer parte do efetivo da tropa. Pela "cartilha" do Gate, a invasão em caso de cárcere privado só ocorre em situações extremas. "Desde o começo da negociação, um policial faz o exame técnico do ambiente", afirma o coronel José Vicente. Os policiais só entrarão em três situações: seqüestrador distraído (ou dormindo), acesso facilitado ou risco iminente para a vítima.

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