Nadia Shira Cohen/Divulgação
Nadia Shira Cohen/Divulgação

Americana faz diário sobre a vida na favela

Fotógrafa morou na Vila Cruzeiro, onde viu até crianças com armas, o convívio entre moradores e bandidos, os bailes funk e a gravidez precoce

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

A fotógrafa americana Nadia Shira Cohen, de 33 anos, registrou em diário detalhes da semana em que morou na Favela Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio, sem ser identificada como jornalista nem por moradores nem por criminosos escondidos no bairro. O relato mostra que policiais e traficantes ainda convivem na favela "governada" por Fabiano Atanázio da Silva, o FB.

A comunidade é considerada uma das mais perigosas e passou a abrigar traficantes expulsos pela instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas das zonas sul e norte.

A seguir, trechos do texto da fotógrafa, que só fez imagens em que não apareciam criminosos. Por motivos de segurança, alega, não foi possível registrar a movimentação dos homens fortemente armados que circulam sem ser incomodados pela polícia.

Próxima parada: Vila Cruzeiro. Eu disse ao motorista que queria descer na Vila Cruzeiro. Depois que passamos pela famosa Igreja da Penha, ele disse para eu descer. Respondi que queria descer no final da linha, dentro da favela. Ele me olhou chocado e perguntou se eu tinha certeza. Forçando a garganta, respondi que sim. Mas eu estava certa disso? Eu levava R$ 20, minha carteira de motorista de Nova York e meu celular.

Na entrada da favela, as coisas pareciam calmas. Eu tinha ouvido falar tanto da famigerada Vila Cruzeiro e todas as suas péssimas referências que, quando cheguei lá dentro, automaticamente procurei por algum sinal de fuzil. Vi um caos ordenado de casas, fios e canos onde uma sociedade de posseiros ergueu casas sem qualquer apoio governamental.

Rua Doze. A mãe da minha cicerone vive em um apartamento em cima de um bar na Rua Doze. A fachada é crivada de balas. A rua concentra um pesado tráfico de drogas. A polícia não pisa lá há mais de um ano. Todos os tipos de pessoas passam por ali: viciados em crack, mães mulatas com crianças de cabelos finos e lisos, além de falsas loiras que cruzam a favela em scooters.

Por volta das 21h, caminho com minha amiga pela Rua Doze. Há muitas motocicletas nas ruas com homens armados com fuzis. Observo dois traficantes abraçados. A afeição me fez pensar que ambos devem ter certeza que vão morrer. Aqueles comparsas devem representar a única família que eles tiveram.

Sentamos em um bar. Um homem nos serve cerveja. Minha anfitriã se inclina na minha direção. "Ele é oficial da PM, mas ninguém toca nele. Cresceu junto com os traficantes." Ela me explica o tênue equilíbrio do convívio entre traficantes e policiais na favela. "Ninguém dedura ninguém, pois sabem que se isso acontecer serão mortos", revela.

O exílio do tráfico. Em casa, minha amiga me chamou em voz baixa para a janela. Vi três homens descendo a rua com espingardas semiautomáticas. As casas utilizadas pelo tráfico são bem conhecidas dos moradores, assim como as casas que atualmente abrigam os traficantes dos morros da zona sul. Após ocupações policiais das favelas da zona sul pela Unidade de Polícia Pacificadora, antes sob o controle do Comando Vermelho, o tráfico se mudou para a Vila Cruzeiro. Um dos chefes exilados morava a menos de 50 m da casa onde eu estava hospedada.

Em uma manhã, na padaria, um burburinho interrompeu o lanche. "Ele está chegando", disse um homem no balcão. Era o rei da favela. Ele passou com a filha e a namorada. A mulher parecia "importada". Provavelmente, uma garota de classe média que queria brincar com os bad boys. No fim do dia, o movimento em uma das casas dele é frenético. Todos se referem ao local como "a casa". Trata-se de uma porta insuspeita por onde homens com fuzis e garotas de minissaia entram e saem com pacotes o dia todo.

Baile funk. Passamos por outra boca de fumo com sete rapazes com fuzis. Encontramos duas meninas menores de 18 anos. Ambas de shorts curtos e top. Usavam brincos e joias. Minha amiga me apresenta ao grupo. Tento aparentar naturalidade rodeada por homens armados.

Perguntam se vou ao baile. Explico que não tenho o que vestir. Minha anfitriã e uma amiga me levam a uma casa e aparecem com várias opções. Uma saia tão curta que poderia ser um cinto, tops minúsculos e, finalmente, um vestido preto que escolhi. Agora, os homens armados olham para mim não necessariamente por alguma suspeita, mas, provavelmente, porque meu vestido é muito revelador.

No baile, vejo bundas rebolando e armas erguidas. Dizer que a cena é surreal seria eufemismo. Vi meninos que aparentavam 8 anos segurando armas com rostos estoicos. As mulheres usam saias e shorts para mostrar propositalmente a marca do biquíni. Este é o baile funk. A música é atraente. Eu me vi dançando.

Mães meninas. O movimento das meninas grávidas nas ruas é hipnotizante. Tentei me convencer que era normal. No entanto, eu não poderia deixar de me sentir triste pelo futuro delas. Quando olhava para as mulheres da Vila Cruzeiro, a sensação era que estava no meio de um cemitério de abandono. Elas engravidam dos homens, que não assumem nenhuma responsabilidade ou morrem antes. Os meninos crescem sem pais, sem ninguém para orientá-los na vida. Uma realidade parecida com a vida dos marginalizados na América. A diferença, neste caso, são as armas. Muitas armas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.