Ambulante aceita cartão em semáforo de SP

Ambulante diz que teve de adaptar estratégia de mercado: ‘Ninguém mais anda com dinheiro’

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Por William Cardoso - O Estado de S. Paulo
Atualização:

SÃO PAULO - Quem quer comprar carregador, capa de celular, suporte para GPS e outras bugigangas entre a abertura e o fechamento do semáforo já tem como opção de pagamento até cartões de débito e crédito. O ambulante Juarez Nascimento, de 21 anos, abriu firma, CNPJ e conta empresarial para oferecer essa comodidade aos clientes, enquanto se espreme com máquina atravessada no peito entre retrovisores no cruzamento da Avenida Vereador José Diniz com a Rua Doutor Jesuíno Maciel, no Campo Belo, zona sul de São Paulo.

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Mais que um "pioneiro" na modalidade "cartão no semáforo", Nascimento foi pragmático. "Por causa dos assaltos, ninguém mais anda com dinheiro. Com a maquininha, o cliente não tem desculpa se quiser comprar alguma coisa", disse o ambulante, que paga R$ 110 mensais à operadora da máquina e vende até R$ 60 por dia no cartão. Ele só não parcela.

A forma de pagamento inusitada para quem está no meio do trânsito divide a opinião dos motoristas. "Acho que compraria, porque não é a primeira vez que o vejo por aqui, já o conheço", disse o supervisor de segurança Daniel Rodrigues, de 43 anos.

A facilidade não atrai o empresário Wagner Pisciottano, de 50 anos. "Eu teria medo de ele sair correndo no meio do trânsito com o meu cartão."

E se o sinal abrir no meio da transação? "Eu peço para o cliente parar do outro lado, que vou buscar", explica Nascimento. E qual a garantia de que o cartão não será clonado? "Meu nome é limpinho como seda branca, tanto que consegui abrir a conta e registrar a máquina. Estou aqui para trabalhar. Quem garante que em uma loja bacana o cartão não será clonado? Nunca tive problema com ninguém."

Comércio. Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo diz que cada vez mais microempreendedores individuais aceitarão cartões de débito e crédito, mas não vê como tendência o uso da maquininha nos semáforos. "Usar dessa forma, no meio dos carros, é um tanto exótico, até porque o tempo que leva para fazer a operação pode não ser suficiente", diz o economista. Ele disse já ter visto a máquina em barraquinhas de camelôs, mas nunca entre os carros.

Titular da Delegacia de Crimes Eletrônicos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), Helio Bressan afirma que é arriscado passar o cartão em máquinas de vendedores no semáforo. "Não aconselharia ninguém a fazer isso. A máquina pode ter um chupa-cabra, que pega os dados do cartão para fazer uma clonagem. Também tem o risco de ter o cartão trocado, e o vendedor ficaria com o original e com a senha."

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Bressan lembra também que o comércio nos semáforos pode causar transtornos ao trânsito e expor a riscos o próprio ambulante. O delegado diz ainda que, normalmente, quem se dispõe a ficar no semáforo de sol a sol é trabalhador, mas que não é possível atestar a idoneidade de todos. "Pode estar na mão de gente boa agora, mas, se virar uma febre, daqui a pouco vai ter quem peça esmolas com essas maquininhas na rua." Segundo Bressan, quem se sentir prejudicado pode procurar uma delegacia.

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