Amarela

Toda palavra é um juízo de valor. Por trás de "correto", por exemplo, está a ideia de que a linha é mais digna que a curva, que há mais virtude na certeza que na dúvida. Da mesma forma, "errado" coloca o andar sem rumo - errância - como indigno, de pouco valor.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

A palavra "covardia" sempre me intrigou, por seus dois significados. Denota tanto a violência que o forte comete contra o fraco quanto a timidez existencial que impede de intervirem os que presenciam a violência. Não é injusto pôr em carrascos e testemunhas o mesmo rótulo?

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No domingo retrasado, na Rua Bolívar, em Copacabana, por volta do meio-dia, dois policiais torturaram um morador de rua.

No domingo retrasado, na Rua Bolívar, em Copacabana, por volta do meio-dia, pedestres assistiram calados à tortura.

Um dos pedestres era eu.

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Assistindo à cena, parado na calçada oposta, ao lado de uma senhorinha com sacolas do supermercado, um sujeito de sunga e regata, vindo da praia, e uma garota saindo da farmácia, com uma caixa de pasta de dentes nas mãos, entendi que os dois sentidos da palavra covardia são os lados da mesma moeda: dois polos, positivo e negativo, sem os quais a corrente da maldade não viaja da intenção ao ato. Só pode existir a covardia do carrasco se a covardia das testemunhas permitir.

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Para torturar o morador de rua, os policiais usavam uma arma amarela, que parece um revólver de brinquedo. Chama-se Taser e de brinquedo não tem nada. Quando disparada a distância, lança dardos presos a fios. Os dardos dão um choque, capaz de derrubar um adulto e deixá-lo imóvel por alguns segundos. Evita, assim, que seja necessária uma bala de chumbo para desarmar um bandido. Ok. O problema é que a Taser também funciona sem os dardos: seu cano, encostado ao corpo, dá choques elétricos.

Lembro-me das reportagens em jornais, faz um ou dois anos, quando as polícias de alguns Estados brasileiros estudavam a adoção da tecnologia. Muito bom que haja uma alternativa à arma de fogo, diziam os otimistas. Muito ruim que haja uma alternativa ao fio desencapado, alertaram os realistas.

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Ao condenar as testemunhas com a mesma pena dos verdugos, a palavra "covardia" as transforma em cúmplices. Tirando-as da posição de espectadores passivos e lhes dando a responsabilidade pelo ato que está a ser cometido, lhes traz o dever e a possibilidade de intervir. A palavra tem em si, portanto, o fardo e a bênção da modernidade. Fardo por dizer que, haja o que houver à nossa volta, é de nossa responsabilidade. Bênção por sugerir, simultaneamente, que mudar o mundo está em nossas mãos.

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Enquanto um policial dava choques no homem e fazia perguntas, o outro revirava seus pertences com o bico do coturno, espalhando as sacolas plásticas, o cobertor cinzento e um amontoado de miudezas sob a marquise, onde ele se protegia da garoa.

O barulho de matraca da pistola amarela, tec,tec,tec,tec,tec, como a ignição de um fogão que demora a acender, era abafado pelos gritos do mendigo, recebendo descargas na parte de trás das coxas e nas costas. Mais ainda, era abafado pelas vozes na minha cabeça: "Vai lá!", dizia-me uma delas. "Você que teve pré-natal e fralda descartável, você que estudou em escolas privadas e frequenta mostras de cinema, você, com lentes de contato e livros na estante, você, que veio de uma família estruturada e caminha em direção a um restaurante: vai ficar aí, parado?" Outra voz, a voz covarde, me dizia: "Esquece. Não é o caso de peitar dois policiais, ainda mais sendo paulista, no Rio de Janeiro. E se te jogarem no camburão? Se te derem choque com a arma amarela?" A voz corajosa insistia. "É seu dever! E é pouco provável que te batam. Você sabe bem que, desde a redemocratização, a tortura deixou de ser aplicada aos de lentes de contato e livros na estante e ficou restrita aos do outro lado da rua, sob a marquise."

Olhei a senhorinha, ao meu lado. "Alguma ele aprontou", disse ela. Então abaixou a cabeça e saiu andando, agarrada a essa frágil certeza trazida pela responsabilização da vítima: afinal, se quem apanha merece, o mundo tem sentido, não vivemos no caos e na barbárie e pode-se voltar para casa com as compras do supermercado. Eu abaixei a cabeça e saí na direção oposta, levando como única certeza a consciência de que devia ter agido, mas tive medo e não fiz nada.

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Covardes. Covarde.

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