Miguel Angel Trejo-Rangel
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Alunos do ensino médio de São Luiz do Paraitinga ajudam a monitorar risco de enchentes

Projeto realizado em São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, conta com a participação de estudantes do ensino médio na prevenção de desastres

Gerson Monteiro, Especial para o Estadão

14 de março de 2022 | 05h00

Estudantes do ensino médio têm ajudado na identificação de áreas de risco e na discussão de medidas de mitigação contra enchentes em São Luiz do Paraitinga, cidade de 10 mil habitantes no Vale do Paraíba. Eles integram uma iniciativa de pesquisadores que decidiram incorporar a participação dos moradores nas ações de prevenção.

O mês de janeiro de 2010 permanece registrado na memória da população local em razão da maior enchente que a cidade já enfrentou, quando o Rio Paraitinga se elevou em 12 metros, destruiu casarões históricos e derrubou a Igreja Matriz, o maior símbolo do município. Nenhuma vida foi perdida, mas o desastre deixou centenas de desabrigados à época e causou a destruição do patrimônio. 

Depois do processo de reconstrução, a cidade recebeu o projeto-piloto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão de pesquisa vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, em parceria com a Unesp. O estudo tem contado com a participação de alunos do ensino médio desde 2014. Eles se reúnem para oficinas com os pesquisadores. 

No início, o grupo identificou os pontos vulneráveis em toda a cidade, analisou os pontos possíveis de melhoria para evitar novos prejuízos causados por enchentes e alagamentos, e definiu ações, tanto por parte do poder público quanto da própria população.

A cada reunião de trabalho, o professor Daniel Messias dos Santos, da Escola Estadual Monsenhor Ignácio Gioia, inspira os alunos a se aprofundar nas pesquisas e a buscar soluções que impactem diretamente no cotidiano da população. 

“A lógica é que, ao indicarem as áreas de risco, por serem moradores locais, eles também tenham essa noção de gestão, desde sugestões de parceiros até a aplicação do recurso financeiro, que é limitado e exige estabelecer prioridade.”

De acordo com Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden, a participação desses jovens no estudo é fundamental para a formação de lideranças que ajudarão futuras gerações a prevenir os efeitos de inundações e deslizamentos.

Novas soluções

Há sete anos participando do programa em São Luiz do Paraitinga, Gabriel Pinho recebeu a visita de alunos do ensino médio quando ainda estava na 5ª série do ensino fundamental. Os colegas falaram da importância da preservação do leito do rio. “A dinâmica do projeto nos fez entrar de cabeça no problema. Estamos sempre pensando em formas para evacuar mais rápido, principalmente as casas que ficam na beira do rio.” 

A participação dos adolescentes tem impacto direto na população. Sara Batista Teixeira entrou o ano passado no projeto, vive em área vulnerável e sofreu o impacto das últimas duas grandes enchentes. Na de 2010, quando o Paraitinga subiu 12 metros, a família perdeu tudo, mesmo morando em um sobrado. Eles foram resgatados pela janela do segundo andar.

A cidade não dispunha de ferramenta de prevenção ou alerta nem de treinamento para as rotas de fuga. No mesmo ano, Paraitinga recebeu a instalação de pluviômetros para medição das chuvas e fluviômetros para acompanhar o nível do rio que hoje transmitem os dados automaticamente para o Cemaden.

Em fevereiro, a cidade viveu um novo susto por conta das chuvas. Analisando com o grupo de estudos, Sara concluiu que, apesar do grande avanço em termos de dispositivos de prevenção, houve falha no sistema de comunicação. Para o professor Daniel, essa falha detectada pelo projeto já permitirá correções a curto e médio prazos. 

Metodologia pode ser levada a outras escolas em projeto nacional

A metodologia desenvolvida e aplicada pelos pesquisadores na cidade paulista vai ser incorporada ao programa Cemaden Educação. O objetivo, de acordo com os especialistas, é levar a escolas informações e projetos centrados no desenvolvimento de uma cultura de percepção de riscos de desastres. 

O Cemaden Educação atua junto a escolas localizadas em municípios vulneráveis a desastres socioambientais. Depois de estar presente em unidades de ensino em Cunha e Ubatuba, no Estado de São Paulo, a iniciativa foi levada também para escolas do Estado do Acre. 

No fim do ano passado, os alunos de São Luiz do Paraitinga reuniram representantes da prefeitura local, do Cemaden, da Defesa Civil e entidades relacionadas para mostrar os resultados do programa aplicado na região, que acabou reconhecido como prática inspiradora pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês). 

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