Alunos da Unifesp são soltos, mas há novo confronto

PM usou spray de pimenta; detidos são acusados de danos ao patrimônio, constrangimento ilegal e formação de quadrilha

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h00

Os 22 estudantes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que haviam sido presos após uma manifestação no câmpus de Guarulhos, na Região metropolitana, saíram ontem da sede da Polícia Federal, na zona oeste da capital, onde estavam detidos desde quinta-feira passada. A saída dos estudantes foi marcada por um novo confronto com a Polícia Militar, que chegou a usar spray de pimenta para conter os alunos.

Ninguém foi preso no novo tumulto, que começou quando a polícia tentou liberar as entradas da sede da Polícia Federal, onde os estudantes estavam fazendo a nova manifestação, com megafones. Conforme deixavam o prédio, os alunos eram aplaudidos pelos demais colegas, antes de a confusão começar.

A estudante de Letras Laisy Cruxen, de 24 anos, a primeira a ser detida pela polícia na quinta, contou que os 22 alunos - 9 mulheres e 13 homens - ficaram juntos a maior parte do tempo em que estiveram detidos, em uma sala descrita por ela como "um auditório" dentro da Polícia Federal. "Depois, fomos separados em algumas celas", contou, onde mulheres e homens foram separados. Agitada, ela disse que praticamente não dormiu nas quase 30 horas em que ficou presa, mas relatou que não houve maus-tratos.

Lausy disse que estava no pátio do câmpus, durante a manifestação, quando os policiais se enfileiraram e avançaram contra o grupo. "Fui pega por trás, não vi o policial, que me agarrou pelo pescoço e me levou para a viatura." A reação dos estudantes foi avançar para defendê-la e os policiais, segundo ela, agiram com violência. "Deu para ouvir as bombas e os tiros (de borracha)", afirma Laisy. Ela disse não ter visto o novo tumulto, na sede da PF, ocorrido após a soltura dos estudantes.

A Justiça havia concedido o alvará de soltura no fim da tarde de anteontem. Mas os alunos só foram liberados no começo da madrugada. O grupo foi acusado de dano ao patrimônio público, constrangimento ilegal e formação de quadrilha, cujas penas podem chegar, somadas, a 8 anos de prisão. Mas a acusação de formação de quadrilha não foi aceita pela Justiça.

O advogado dos estudantes, Pedro Ivo Iokoi, afirmou que as acusações eram desproporcionalmente pesadas. "O juiz (que emitiu o alvará de soltura) entendeu que a classificação de formação de quadrilha era absurda e estamos muito felizes com isso", disse.

Vandalismo. O prédio da Unifesp teve os vidros de diversas janelas quebrados, os móveis das sala de aula destruídos e computadores arrebentados. O lugar ficou todo pichado. Os estudantes disseram que o vandalismo só ocorreu após a chegada da Polícia Militar. Já a PM informou que só agiu para impedir a depredação. A PM disse ter sido chamada ao câmpus pela direção da universidade e divulgou à imprensa o áudio da gravação feita ao 190. Nele, uma funcionária diz que parte do patrimônio já estaria sendo alvo de vandalismo.

Os estudantes também divulgaram vídeos na internet mostrando uma manifestação pacífica no prédio da universidade. Depois da chegada da PM, observam-se alunos ensaguentados.

Greve. A greve dos estudantes da Unifesp já dura 80 dias. Os alunos reivindicam melhoria na infraestrutura do câmpus de Guarulhos, a começar pela construção de uma sede própria - uma promessa que vem desde 2007. A manifestação que terminou com a confusão era uma assembleia estudantil que havia decidido manter a paralisação. Há 54 câmpus de universidades federais passando por paralisações estudantis.

Os estudantes programaram para as 16 horas de amanhã um protesto na Avenida Paulista contra o que chamaram de "barbárie na Unifesp", destacando a ação da Polícia Militar. Eles ameaçam parar a avenida. "Vão ter de olhar para a gente. É am ato de verdade contra essa barbárie que aconteceu e está acontecendo na Unifesp com os estudantes", afirma o convite para o evento, postado no blog do comando de greve. Na internet, os estudantes afirmam que não foram agredidos pela Polícia Militar, mas sim pela Unifesp.

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