Aluguel em alta ameaça lojas na Rua da Carioca

Conjunto do século 19 foi vendido pelos franciscanos para a gestora Opportunity

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

18 Março 2013 | 02h06

As transformações urbanísticas no centro do Rio já provocam uma valorização imobiliária no local e começam a afetar quem, há décadas, ocupa a região. Na Rua da Carioca, comerciantes de pontos tradicionais temem que a escalada dos aluguéis obrigue lojas centenárias a fecharem as portas.

Essa ameaça atinge locais como o Bar Luiz, reduto de intelectuais, autoridades e turistas desde 1927, a Vesúvio, especializada em guarda-chuvas e barracas de praia, que leva a alcunha de "príncipe das sombrinhas", e a Guitarra de Prata, que vende instrumentos musicais há 126 anos e por onde já passaram Noel Rosa, Pixinguinha e Baden Powell.

As lojas fazem parte de um conjunto arquitetônico característico do século 19, quando a arquitetura colonial dos casarões da Carioca perdia espaço para as referências do estilo art déco parisiense. O conjunto, formado por 19 casarões tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), foi adquirido pela gestora Opportunity no ano passado. Os imóveis, então pertencentes à Venerável Ordem Terceira de São Francisco, foram vendidos em um lote único de R$ 54 milhões para saldar dívidas da instituição. Os lojistas reclamam que a ordem religiosa não teria dado o direito de preferência aos comerciantes inquilinos para aquisição dos casarões, pois para exercer o direito de compra seria necessário adquirir o lote todo.

De acordo com o presidente da Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca), Roberto Cury, o aumento médio dos aluguéis em mais de 50% inviabiliza a permanência dos atuais comerciantes na área. "Estão querendo expulsar os lojistas. A verdade é que estão querendo acabar com o que resta do centro histórico do Rio, o que é lamentável."

Cury relata que uma das lojas teve de fechar as portas porque os inquilinos não concordaram com o aumento de 330% no aluguel - eles pagavam R$ 12 mil por mês pelo espaço de três pavimentos, e a renegociação proposta pelo fundo imobiliário previa um aluguel de R$ 40 mil.

Sem ilegalidades. O diretor responsável pela gestão de fundos imobiliários do Opportunity, Jomar Monnerat, afirma que os aluguéis estavam defasados e com valores abaixo do mercado. "Estamos fazendo contrato com todos que querem ficar, somos muito flexíveis". Monnerat diz não ter a pretensão de atrair lojas de grife para a região. "Queremos ajudar a cada um para que tenha o comércio valorizado, até porque uma parte dessa valorização acaba sendo paga como aluguel. Mas é um processo um pouco lento." Ele propôs que os espaços ociosos dos pavimentos superiores dos casarões sejam ocupados por um segundo locatário. "Estamos ainda na fase de conquistar os inquilinos e de fazer um levantamento da situação dos imóveis."

Monnerat afirma que o aumento dos aluguéis não é ilegal, porque os contratos anteriores firmados com a Ordem Terceira não continham uma cláusula exigindo a manutenção da vigência em caso de alienação do imóvel. Por isso, o Opportunity tem o direito de fazer novos contratos.

A situação preocupa Rosana Santos, proprietária do Bar Luiz. A proposta que ela recebeu corresponde a quase o dobro do aluguel. Na semana passada, o Bar Luiz recebeu a visita de uma arquiteta e um restaurador contratados pela investidora para avaliar o estado de conservação do bar.

Monnerat disse que pretende restaurar os imóveis, mas enfatizou que cabe ao locatário conservar o local. Para Rosana, o restauro "seria uma intervenção em um bem que, embora seja particular, é muito mais uma instituição do que uma entidade privada, pelo que ele significa". Só resta saber quem vai pagar a conta.

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