Aluguel de empena para arte já sai por R$ 15 mil

Com o fim do uso para publicidade, paredões de prédios viraram espaço disputado por grafiteiros

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2013 | 02h05

Após perderem uma rentável fonte de renda com as propagandas que ficavam em suas empenas cegas (laterais sem janelas), edifícios da capital estão agora tentando balancear as contas alugando as paredes em branco para artistas - principalmente grafiteiros - e projetos. Os valores dos aluguéis vão de R$ 3 mil a R$ 15 mil mensais e até permutas são aceitas.

Para arcar com esse preço, os artistas inovam. Daniel Melim, autor do mural que fica atrás da Estação da Luz, na região central, por exemplo, apelou ao site de financiamento coletivo Catarse para pagar a renovação do aluguel da empena. A iniciativa foi um sucesso: em três dias, Melim já tinha arrecadado os R$ 26 mil pedidos. O valor inclui o aluguel por um ano e meio do local, mais alguns custos de manutenção e a taxa paga ao site. "De aluguel mesmo, devem ser uns R$ 18 mil", diz.

O mural foi feito em 2011, com o patrocínio da KLM, que pagou o uso da empena por um ano. Caso Melim não conseguisse arrecadar o dinheiro, a obra seria apagada. "Muita gente comentou que quem deveria estar pagando é o dono do prédio, pela arte que está ali", conta. "Muitos prédios já ganharam grana com a publicidade e o sucesso na arrecadação mostra que tem gente pensando que São Paulo precisa de arte no espaço público."

A iniciativa de Melim há dois anos foi uma das pioneiras depois que a Lei Cidade Limpa foi instaurada. Em seu texto, ela permite que empresas financiem pinturas e instalem, durante um mês, uma placa com 80 cm de altura por 60 cm de largura com seu logotipo e informações sobre o painel.

Com base nessa permissão da lei, a Farah, empresa que oferece soluções ligadas à sustentabilidade de marcas, passou a oferecer as empenas como uma alternativa. É a empresa que está por trás da Galeria GE, conjunto de quatro pinturas que podem ser vistas em endereços nobres da capital, como as Avenidas Paulista e Brigadeiro Faria Lima e a Rua da Consolação. "Essa é uma forma diferenciada de divulgar as marcas e ainda tira um pouco do cinza da cidade", afirma Vívian Palhares, do setor comercial da Farah. Segundo ela, os aluguéis não passam de R$ 15 mil e dependem do tamanho e da localização da empena.

Permuta. Quando os artistas não possuem o patrocínio, outras formas de pagamento podem ser negociadas. Em busca de uma empena pela cidade, o artista Thiago Bender se tornou praticamente um especialista no assunto e diz que, às vezes, é possível fazer uma permuta. "Os prédios são obrigados a ter a fachada sempre pintada. Por isso, alguns síndicos trocam a manutenção da pintura da fachada pelo espaço para o grafite", conta.

É o caso do Edifício São José, na Rua da Consolação. Sua empena, que pode ser vista da Avenida Doutor Arnaldo, recebeu no último mês um desenho da GE. O administrador do prédio, Charles Santos, conta que o edifício cobra R$ 3 mil por mês e, como contrapartida, terá suas outras fachadas pintadas de branco, algo que entraria na conta dos moradores caso o acordo não fosse feito. "O prédio precisava de um banho. Alugar para arte é um jeito de equilibrar as contas, mas ainda é um dinheiro bem menor do que recebíamos com publicidade." Antes da Cidade Limpa, o edifício cobrava a mensalidade mínima de R$10 mil. Para Bender, ainda são poucas as empresas dispostas a desembolsar dinheiro em projetos assim. "Aos poucos, está começando a vingar, mas a iniciativa privada ainda não está engajada."

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