Alternativos pedem silêncio

A 1 km da Cidade do Rock, o encontro Rock in Healing Gathering prega o desapego em sítio "cercado de magia"

PAULO SAMPAIO , ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h04

"Sábado é o Dia Internacional da Música, e o pessoal do Rock in Rio nem deve saber disso", acredita o DJ e VJ Marcelo Fernandes, de 30 anos, rebatizado Marcelo Shama. Ele é o coordenador do Rock in Healing Gathering, um encontro de alternativos que se dedicam até domingo a atividades como xamanismo, ecopedagogia, permacultura, bioconstrução e gastronomia viva.

"Aproveitamos o fluxo energético e humano do festival para promover o encontro. Nossa intenção é atuar como ponto luminoso e de conscientização", explica Shama, que se valeu também da proximidade física entre os dois eventos. A 1 km da Cidade do Rock, a Aldeia Terra Nova fica em um sítio de 13.000 m² em Vargem Pequena, zona oeste do Rio. Ele achou que seria uma boa ideia oferecer hospedagem para roqueiros interessados em vivenciar a economia solidária.

Aparentemente, são poucos. Difícil imaginar os fãs de Rihanna ou Claudia Leitte interagindo com os correligionários de Shama. Em um giro pelo Sítio das Pedras, que é "cercado de magia e natureza exuberante", ouve-se reggae, tambores e flautas. O cheiro é de incenso, fumaça (de fogueiras) e rapé. O astrólogo Ricardo Mira, de 36 anos, que deixou o curso de rádio e TV na Faap para dedicar-se à música orgânica e ao resgate do sagrado, reconhece: "As filosofias não batem. Eles (público do Rock in Rio) devem ter pensado: 'Isso não é pra mim'".

Na oficina do rapé, ensina-se que o pó é feito com tabaco, cinza de pau-pereira e ervas ("medicinais", como Shama faz questão de frisar). Utiliza-se um instrumento feito com bambu em forma de "L", com dois orifícios. Alguém sopra de um lado, outro cheira do outro: "Serve para abrir o terceiro olho", explica o técnico de plantio Israel de Souza, de 38 anos. Ele se sentou ao redor da fogueira com o peregrino Raphael Valério, de 37, que é muito magro, de cabelos compridos e olhar distante.

Não há nada por perto parecido com um metaleiro de preto, ou um adolescente bebum. "Pedimos que não tragam bebida nem substâncias ilícitas", afirma Shama, que recebeu 250 convidados para uma festa no sábado e diz que poucos, ou quase ninguém, vinham do Rock in Rio.

Sempre na hora do almoço, os frequentadores do Rock in Healing se reúnem em uma roda. "Uma roda linda", define Shama. E então, eles se dão as mãos e entoam uma das músicas que são tema do evento: "Estamos cantando a canção, a canção do coração/Essa é a família, essa é a unidade/Isso é celebração, isso é sagrado/Força da paz, cresça sempre, sempre mais/Que reine a paz e acabem-se as fronteiras". "A gente trabalha muito a unidade", enfatiza Israel.

Imagine o fã de Katy Perry levando a própria caneca para a comunidade, porque ali não se usa copos descartáveis. Ou oferecendo seus objetos para desapegar na "feira de trocas". Depois de pagar R$ 190 pelo ingresso do Rock in Rio, o roqueirinho evoluído desapega de seu tênis de marca e leva em contrapartida um dos artefatos de lixo reciclável produzidos pelos alternativos do Rock in Healing, que pagaram R$ 25 por dia de encontro.

Na aldeia, o figurino padrão é calça larga de pano fino, colorido, camiseta com símbolos da paz e da transcendência. A maioria anda descalça. Híris Moraes, de 19 anos, veste a parte de cima de um biquíni de linha. "Vim pra dar um apoio à galera", afirma ela, que está acompanhada da mãe, a massagista Ivana, de 41 anos, e o filho, João, de 3. Mais tarde, quando a temperatura cai, Híris põe um colete de lã com desenhos de lhaminhas enfileiradas.

"Nosso cocô é reaproveitado como adubo. Usamos banheiro seco", diz, com um misto de naturalidade e orgulho, Ricardo Mira. "Eu sei que é muito mais fácil apertar um botão, mas cada descarga dada polui 14 litros de água", argumenta ainda.

No meio de uma trilha que leva ao Templo de Tara, erigido embaixo de uma rocha, o repórter dá um tapa na própria perna, para abater um pernilongo. "Ele não vai te picar mais. Eu dei um comando", ressalta Shama. Casado com a canadense Jessica Begining, ele conta que, no momento, ela está em um hospital (público), tirando raio X do pulmão. "Um princípio de pneumonia."

Todos os dias são dedicados a algum culto ou atividade específica. Tem o dia internacional do coração, da prática do amor incondicional; o que propõe suar durante orações através da dança; e o da consciência permacultural, que ensina práticas sustentáveis para o dia a dia.

O de ontem, quinta-feira, foi o do silêncio curador. Ninguém falava. Perfeito para o público do Rock in Rio.

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