Alta paquerologia

Pelo menos ele teve a gentileza de me prevenir:

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h05

- Vou paquerar você.

Disse e passou aos atos: veio para a ponta da cadeira, jogou o tronco para a frente e trouxe o rosto até uma aflitiva proximidade do meu, cravando-me uns olhos de oftalmologista lúbrico, ao mesmo tempo que as narinas entravam num arfante abre-e-fecha. Eu ali, firme, sustentando o olhar paquerante do professor.

- Três segundos - cronometrou ele, e então puxou tronco e pupilas para trás, tirando-me de sua ameaçadora órbita, para encaixar-se novamente na cátedra de polipropileno.

Não sei se você já passou por experiência semelhante. Saiba, em todo caso, que três segundos podem durar uma espinhenta eternidade. Não sei o que teria sido de mim se houvesse um segundo a mais. Não garanto nada. O cenário, felizmente, estava longe de ser propiciatório. Romantismo zero, se você quer detalhes. Mal cabíamos os dois ali, entre paredes tão frágeis que não resistiriam ao sopro de um Lobo Mau enfisemático, num cubículo atulhado não só de teses como, a julgar pelo volume da papelada, também hipóteses, conclusões e pressupostos metodológicos, mais notas de pé de página em quantidade suficiente para equipar miríades de eruditas centopeias.

Antes que você me venha com insinuações maliciosas, me apresso a esclarecer: eu não estava ali em causa própria, mas em missão jornalística. O mesmo se diga de meu interlocutor: para além da pessoa física, cujos atributos não vêm ao caso, eu tinha diante de mim ninguém menos que uma sumidade da paquera, sim, um pesquisador capaz de conferir status de ciência ao estudo do mais prosaico xaveco. Não exatamente um paquerador, portanto, pelo menos não durante o expediente, mas um, digamos, paquerólogo, e de alto coturno, empencado de títulos e escorado em obesa bibliografia.

Não me pareceu especialmente empenhado em obter que o repórter sucumbisse a seu assédio visual. Queria apenas demonstrar que seguramente algum interesse existe se dois olhares se sustentam, emaranhados um no outro, por escassos três segundos. Tampouco é por voyeurismo que o professor, azarando pelo câmpus, tem o hábito de flagrar estudantes que, engalfinhados, se estudam mais de perto. O escopo, explica, é apenas esmiuçar os intrincados caminhos que podem conduzir à cama. Bom de câmera, ele sai catando ilustrações da linguagem não-verbal com que, à base de avanços e recuos, homens e mulheres encenam seu xaxado erótico.

Não se confunda, portanto, o professor com algum bisbilhoteiro, reles paparazzo à cata de lambanças carnais. Seu voyeurismo tem objetivos estritamente científicos. Escrupuloso, ele só vai aproveitar a foto em seus estudos se autorizado pelos protagonistas.

Mas o que xereta, exatamente, a objetiva do professor? Um modo de olhar ou sorrir, uma expressão facial, um jeito de corpo - tudo é material para minuciosa dissecação. No afã de escarafunchar os mecanismos do comportamento amoroso, ele já andou estudando até mesmo a paquera entre peixes (tento imaginar dois bagres), estando em condições de informar que alguns deles têm uma "dança de cortejo" bem bonita.

Mais frequentemente apontado para seres humanos, o arpão fotográfico do professor vai fisgando ocorrências que, à força de se repetir, possam ser tomadas como comportamentos típicos. Ele já sabe, por exemplo, que a mulher em trâmites paquerais tende a movimentar os ombros num ritmo mais acelerado que o habitual. Também por coquetismo, ela dá de jogar seguidamente o queixo em direção ao ombro, num movimento sinuoso e lânguido, e se põe a exibir a palma das mãos, naquele gesto que, num gay, seria rotulado de "desmunhecada". O macho não deixa por menos - quando empenhado no minueto da conquista, ele inconscientemente joga a cabeça para a frente, espicha o pescoço em direção à caça, qual atento periscópio, e, contraindo a barriga, faz inflar o peito e os corpos cavernosos também da alma. Quanto mais partes do corpo estejam envolvidas, ensina o professor, mais envolvida está a pessoa. O primeiro anzol, aprendi, é quase sempre o olhar. Foi nesse ponto que ele me encarou, como se fôssemos dois bagres:

- Vou paquerar você.

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