Sérgio Castro/AE
Sérgio Castro/AE

Alguma coisa acontece no meu violão

Maurício Pereira foi saber o que é ser músico de rua na esquina que faz astros ficarem invisíveis

Maurício Pereira*,

22 Janeiro 2010 | 00h01

A manhã paulistana estava escaldante e lá fui eu, com violão à tiracolo, saber na pele como vive um músico de rua na esquina da Ipiranga com a São João. Subi do Anhangabaú e a lendária esquina se apresentou: o Bar Brahma de um lado, o relógio do Banco de Boston do outro.

 

Na calçada, a coisa é diferente. Nem tudo é tão lendário assim. De dia, dia de semana, o lugar soa mais Sampa do que Ronda. Talvez nem Sampa. Pouca gente passa, cada um na sua, quietos: esperam o farol e caem fora. Será que a esquina foi sempre assim melancólica? Os lugares nas cidades são assim, têm seu apogeu e decadência, sua época, seu timing. No tempo da minha mãe, a gente tinha que ir ao Centro pra tudo. Não tinha shopping nem internet, os cinemas e as repartições eram lá, a cidade era menor.

 

Nesse dia, nem pomba, nem nóia, nem camelô. Eles preferiram olhar de longe, discretamente. Derramei baladas no violão e nada, acho que eu já estava invisível. Normal. Pensei: o barulho é grande, devia ter levado amplificador, como os andinos da 24 de Maio e os evangélicos da Praça Ramos.

 

Em Nova York o povo é acostumado a ver músico na rua, dá trela, joga moeda. Mas a rua é tinhosa e, em 2007, o violinista Joshua Bell tocou uma hora no metrô de Washington e ninguém notou. Estranho? Não: essa é a rua, ela tem sua maneira de ouvir, coletiva, atenta e desatenta. Nela, o ouvido segue outra hierarquia. Enfim, pro leitor que quer se tornar um astro pop, um conselho: Ipiranga com São João não é o lugar, talvez a Praça Ramos, o Chá, o Patriarca. Ou a Sé. Mas tem que tocar Raul, se não o povo te janta.

 

*Maurício Pereira é músico

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