Sebastião Moreira/EFE
Sebastião Moreira/EFE

Alckmin diz que 'questão da água está resolvida'

Questionado se a crise hídrica havia acabado, governador de SP respondeu que 'não tem mais risco, mesmo que haja seca'

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

07 Março 2016 | 16h33

SÃO PAULO - A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) decretou nesta segunda-feira, 7, o fim da crise hídrica em São Paulo, pouco mais de dois anos após seu início declarado. Em evento na capital paulista, o governador disse que a “questão da água está resolvida” e justificou o anúncio dizendo que o Sistema Cantareira, o mais afetado pela seca, chegou a quase 60% da capacidade. Esse índice, contudo, inclui as duas cotas do volume morto do manancial, cuja autorização para captação foi suspensa nesta segunda pelos órgãos reguladores do sistema.

“A questão da água está resolvida, porque nós já estamos chegando a quase 60% do Cantareira e 40% do Alto Tietê. Isso é água para quatro, cinco anos de seca”, afirmou Alckmin durante palestra na Associação Comercial de São Paulo, no centro da capital paulista.

“E teremos, a partir do ano que vem, uma superestrutura em São Paulo. A região metropolitana estará bem preparada para as mudanças climáticas”, completou, referindo-se às obras do Sistema São Lourenço e da transposição de água do Paraíba do Sul para o Cantareira, previstas para 2017, que devem trazer para a Grande São Paulo mais 11,5 mil litros por segundo, o suficiente para atender 3,4 milhões de pessoas.

Segundo balanço divulgado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o Cantareira tinha nesta segunda 58% da capacidade, incluindo a reserva profunda. Sem o volume morto, o índice era de 28,7%, patamar que não era atingido desde 22 de dezembro de 2013, antes de a crise ser anunciada. Sem contar a fase crítica, contudo, é o nível mais baixo para o início de março desde 2004, quando o sistema também sofreu estiagem. Março marca o fim do período chuvoso, que começa em outubro.

Uma resolução conjunta assinada nesta segunda pela Agência Nacional de Águas (ANA) e pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), subordinado a Alckmin, revogou as autorizações concedidas à Sabesp em julho e novembro de 2014 para captar as duas cotas do volume morto do Cantareira. Ambos afirmam de que não há previsão de que seja necessário usar a reserva novamente. Na prática, a medida faz com que os 287,5 bilhões de litros extras só voltem a ficar disponíveis para captação mediante nova autorização dos órgãos. 

Em entrevista concedida ao Estado há três semanas, o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, defendeu que o volume morto fosse incorporado ao sistema e disse que a crise hídrica ainda não havia acabado. Mas em entrevista publicada nesta segunda pelo jornal Diário do Grande ABC, ele também decretou o fim do problema de abastecimento. Questionada pela reportagem, a Sabesp afirma que, mesmo sem contar com a reserva profunda, a quantidade de água nas represas hoje já supera março de 2014, quando o sistema tinha 15,8% na mesma data.

A companhia destacou ainda a volta das chuvas acima da média no Cantareira, que elevaram em 55,4% a entrada de água no sistema na primeira semana de março, em relação à média histórica do mês. Na comparação com março de 2014, o pior da história, o avanço é de 441,8%. Apesar do declarado fim da crise, a Sabesp não decidiu se vai acabar com o programa de bônus para quem economiza água e com a multa para quem aumenta o consumo.

Prematuro. Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que a situação hídrica hoje é “mais confortável” do que nos dois últimos anos, mas que decretar o fim da crise é “prematuro”. “Historicamente, o Cantareira tem muito mais do que 30% nesta época do ano. Antes da crise, em 2013, eram 57%. Não considero um nível de segurança, uma vez que estamos no fim do período chuvoso e o prognóstico do segundo semestre é de redução do volume de chuvas com o fim do El Niño”, disse Pedro Côrtes, especialista em recursos hídricos e professor da Universidade de São Paulo (USP).

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