Alckmin ameaça mandar líderes ao RDD

Governador diz que documentos achados em Paraisópolis podem servir como prova para prender cúpula do PCC em regime mais rígido

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h07

Após a Polícia Militar encontrar anteontem uma central de espionagem do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Favela de Paraisópolis, zona sul, onde eram planejados ataques contra policiais, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que as informações são "cruciais" e podem ajudar a mandar criminosos para o temido Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

"As informações serão extremamente importantes para a polícia trabalhar e enfraquecer ainda mais essas ações (de ataque à polícia) e colocar em cadeia, se for necessário Regime Disciplinar Diferenciado, isolamento absoluto, os líderes do crime", disse Alckmin sobre o material apreendido, divulgado ontem com exclusividade pelo Estado.

No RDD, o preso fica em cela individual, tem direito a banho de sol de apenas 2h diárias e só recebe visitas semanais de duas pessoas. O fim do regime é uma antiga reivindicação do PCC. No RDD de uma prisão federal, o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, classificou o sistema como "fábrica de loucos e monstros".

A penitenciária paulista com RDD, em Presidente Bernardes, é a única no Estado com vagas sobrando. Há 60 vagas e 23 presos. Atualmente, no entanto, a maioria dos integrantes da cúpula do PCC está em outra unidade, a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.

Os documentos achados podem ser usados como provas contra criminosos. Quem mais pode ser prejudicado pelo material encontrado na central é Francisco Antônio Cesário da Silva, o Piauí. Atualmente preso, ele é apontado como um importante líder da facção criminosa, além de chefe do tráfico em Paraisópolis. É suspeito de dar a ordem para matar policiais no Estado, após integrantes da facção serem mortos em ações da PM.

Desorganização. Apesar dos 86 policiais mortos e da lista encontrada com endereços e características de novos alvos do PCC, o comandante do Batalhão de Choque da PM, César Morelli, minimizou o poder da facção. "Esse crime organizado é entre aspas. Não é uma máfia italiana. Na gíria comum, às vezes não sabe nem falar e se tem como organizado", diz. "Então, na verdade, é uma desorganização que está subjugando pessoas e a polícia está combatendo", completou.

O delegado-chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Jorge Carrasco, afirmou que foram presos 23 criminosos suspeitos de matar policiais militares. Segundo levantamento da PM, 37 dos 86 PMs mortos foram executados.

O departamento também investiga os homicídios das pessoas que têm sido mortas durante a noite na Grande São Paulo, quase sempre por atiradores que passam em carros e motos. Uma das vertentes apuradas é a de policiais e ex-policiais matando por vingança. "Tudo é investigado. Eu tenho um caso em Osasco que tem a evidência de que foi um ex-policial militar que foi expulso em 2008. E o DHPP não vai passar a mão na cabeça de ninguém. Só que tudo tem de ter prova", afirmou.

De acordo com Carrasco, porém, é necessário analisar cada caso isoladamente. Para ele, há criminosos se aproveitando da situação tensa para eliminar rivais do crime. A maioria dos casos aconteceu próximo a pontos de venda de drogas. "A maior parte dessas pessoas tinha passagem na polícia por consumo de droga, furto e roubo", afirmou.

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