AL: mais 8 moradores de rua mortos neste ano

Estado registrou 37 execuções e 2 tentativas em 2010; acredita-se na ação de um grupo de extermínio, a mando de comerciantes locais

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Oito moradores de rua já foram mortos em Alagoas somente neste ano. A última vítima, possivelmente de grupos de extermínio, foi um homem conhecido apenas como Cabeludo. Ele foi encontrado morto, com ferimentos na cabeça e no corpo, na manhã de anteontem, na calçada da Rua Doutor Albino Magalhães, no bairro do Farol.

Quando chegaram ao local para realizar a perícia e recolher o corpo, os peritos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico-Legal Estácio de Lima (IML) se depararam com uma cena comovente. Um cão do tipo vira-lata insistia em não sair do local e não deixava ninguém se aproximar do corpo do dono. Além disso, tentava, em vão, reanimar a vítima.

A Polícia Civil de Alagoas ainda não tem informações sobre as causas e os autores do crime. Um outro morador de rua, que dormia no local do incidente, foi ouvido pelos policiais e disse que não viu nem ouviu quando seu colega foi assassinado. Cabeludo tinha ferimentos na região da cabeça, por causa de uma queda, além de perfurações no queixo e nas costas. Comerciantes da região são suspeitos de serem mandantes do crime.

Sem solução. No ano passado, a Polícia Civil de Alagoas registrou 37 mortes e duas tentativas de assassinato de moradores de rua no Estado. Neste ano, das oito vítimas, seis foram assassinadas na capital e duas no interior do Estado. Além de Cabeludo, foram executados, de janeiro para cá, Nataniel Iraquitan, Alexsandra Barbosa, Profeta, Estranho e outros três moradores de rua que nem sequer chegaram a ser identificados.

Na quarta-feira, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL) enviou ofício ao diretor-geral de Polícia Civil de Alagoas, delegado Marcílio Barenco, pedindo a instauração de inquérito para apurar a morte de Estranho, executado a tiros na noite de terça-feira, no bairro da Levada.

Segundo o presidente da Comissão, advogado Gilberto Irineu, também foram solicitadas a Barenco informações sobre as mortes de outras seis pessoas apontadas como moradores de rua. "O objetivo da solicitação é saber se os crimes foram elucidados, se há investigação em andamento e se os inquéritos foram concluídos e remetidos à Justiça com autoria conhecida."

Militante dos direitos humanos, Gilberto Irineu é o coordenador do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento das Políticas Públicas Municipais para a População em Situação de Rua, criado no ano passado pela prefeitura de Maceió. Para ele, além de punição para os assassinos, o poder público precisa ter políticas para moradores de rua. "Só pararemos de contabilizar essas mortes se tivermos ações concretas a serem implementadas com o intuito de reduzir o contingente de moradores de rua, oferecendo portas de saída dignas", justifica.

Plano. A ideia, segundo Irineu, é reunir em um só documento o Plano Bienal Intersetorial de Ações e Metas, projetos de vários órgãos municipais. "Ele será apresentado ao prefeito Cícero Almeida (PP), a quem caberá concretizar as ações e metas sugeridas pelo Comitê, que dessa forma cumpre a missão que lhe foi proposta", destacou, acrescentando que acolheu no texto sugestões de moradores de rua.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.