Air France aponta negligência da Airbus em acidente

Em memorando enviado à Justiça, companhia aérea acusa fabricante de ter ignorado falhas nos sensores de velocidade

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Um memorando da Air France sobre a queda do voo AF-447 lançou acusações sobre os fabricantes Airbus e Thales quanto às responsabilidades no desastre aéreo que matou 228 pessoas no Atlântico, em 31 de maio de 2009.

Segundo o documento, entregue à Justiça da França e revelado pelo jornal Libération ontem, as duas empresas teriam menosprezado as advertências, os pedidos de manutenção e de substituição das sondas de velocidade - os chamados tubos Pitot - supostamente realizados pela companhia aérea no ano que antecedeu o acidente.

A companhia sustenta que, diante das dúvidas que ainda pairam sobre a investigação, "é impossível estabelecer um vínculo de causa e efeito" entre a falha dos sensores e o acidente. Mas o memorando soa como uma admissão de que os sensores foram, de fato, um problema técnico maior que pode ter originado a série de falhas eletrônicas, mecânicas e humanas que teria levado à queda da aeronave. Essa tese, defendidas por experts independentes, vem até aqui sendo negada pelo Escritório de Investigação e Análise para a Aviação Civil (BEA), responsável pela apuração das causas da tragédia.

O documento foi enviado em setembro por advogados da Air France à juíza de instrução Sylvia Zimmermann, que orienta as investigações por "homicídio involuntário" na Justiça da França. A Air France afirma ter discutido durante 10 meses com a Airbus, construtor do avião A330 acidentado, sobre como evitar as panes que vinham sendo identificadas nas sondas da marca Thales, modelo AA, proibidas pela Agência Europeia de Segurança Aérea (EASA) após o desastre. Segundo a companhia aérea, até mesmo a substituição total dos equipamentos por sensores Goodrich foi aventada, mas "sem recomendações nem soluções perenes amenizando o problema" apesar "da criticalidade e da periculosidade das panes".

No memorando, a Air France também alega estar sendo injustiçada pelas críticas que lhe são dirigidas em razão do acidente. "A companhia teve o sentimento de que lhe são imputados erroneamente negligências ou erros que ela não cometeu", diz o texto. As informações foram suficientes para que Jean-Baptiste Audousset, presidente da associação de famílias de vítimas Ajuda Mútua e Solidariedade, reforçasse suas convicções. "A Air France valida sem ambiguidades que as sondas Pitot estão no centro da cadeia de causas do acidente", afirmou.

Em Paris, o texto foi interpretado não apenas como uma admissão da gravidade das falhas dos tubos Pitot, mas como uma estratégia na futura disputa judicial em torno das indenizações. A companhia aérea já havia solicitado à Justiça o seu reconhecimento como "parte civil", ou seja, vítima no caso. O pedido foi rejeitado. Experts contratados pelo Judiciário têm até o dia 31 de dezembro para entregar o relatório definitivo com conclusões sobre o acidente.

Em análises provisórias, os técnicos haviam apontado as falhas dos sensores como "fator contributivo" do acidente. Ontem, nem a Thales nem a Airbus ou a Air France comentaram o conteúdo do memorando.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.