''Ainda está tudo como ela deixou''

Mário Nakashima, pai da advogada Mércia, assassinada em maio[br][br]Aos 61 anos, ele diz que deixou a aposentadoria para tentar ocupar a cabeça e, por medo, não sai mais à noite

Entrevista com

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Mário Nakashima passou 15 anos juntando dinheiro no Japão para garantir uma aposentadoria sossegada. Trabalhava em uma padaria em Komaki, na Grande Nagoya, que vendia 120 mil pães por dia. Agora, aos 61 anos, de volta a Guarulhos, na Grande São Paulo, tem o dinheiro, mas nenhuma perspectiva de sossego.

"Voltei a trabalhar para ocupar a cabeça com alguma atividade, senão enlouqueço ", diz o pai da advogada Mércia Nakashima, cujo corpo foi encontrado em 11 de junho boiando na Represa Atibainha, em Nazaré Paulista, a 90 quilômetros da capital paulista. Mércia tinha 28 anos.

O Dia dos Pais de Mário tem tudo para ser inesquecível - no pior sentido. Na quinta, a juíza Angélica de Almeida revogou a prisão preventiva do principal suspeito do crime, o advogado e ex-policial Mizael Bispo dos Santos, de 40 anos, que foi namorado de Mércia e estava foragido.

"Ele reapareceu rindo na TV. Devia estar rindo da Justiça", diz o advogado da família e assistente de acusação Alexandre Domingues de Sá. Segundo Mário, Mizael costumava procurá-lo, chorando, para que ele intercedesse em seu favor quando Mércia terminou definitivamente o namoro.

Ao volante de uma picape S10 preta a diesel com a qual presta serviços à prefeitura, Mário Nakashima passa os dias conduzindo moradores de rua e funcionários de um albergue municipal que fica no centro de Guarulhos. Foi ali, entre uma viagem e outra, que deu a seguinte entrevista ao Estado.

Como sua família está enfrentando o luto? O que mudou em sua vida?

Tudo. Acabou a estabilidade. Se 99,9% das pessoas não se conformam com o que aconteceu, imagina a gente. Éramos uma família tranquila, absolutamente normal, sem nenhuma tragédia em seu histórico. Agora, minha ex-mulher (Mário é separado da professora Janete Ferreira, de 52 anos, com quem tem mais dois filhos, de 32 e 21 anos) está com depressão, dorme mal, não tem energia para trabalhar. Meu filho contou que ela até chegou a ir ao supermercado, para ver se distraía, mas abandonou o carrinho e voltou para casa. Na quarta-feira, antes de saber que a prisão do Mizael tinha sido revogada, ela até fez um bolo e conversou com minha outra filha, a Cláudia, que perdeu 8 quilos em um mês. Mas as notícias a levaram de novo para a estaca zero. De quarta para quinta, teve picos de pressão de 12 por 24. Tiveram de levá-la para o pronto-socorro.

Ela faz o quê?

Estava trabalhando no escritório que a Mércia tinha em sociedade com a Cláudia. Na semana passada, a Cláudia ainda foi a uma audiência de um processo que era da Mércia, mas decidiu que vai fechar o escritório.

De certa maneira, foi graças à sua insistência que acharam o corpo da Mércia.

O vigia interrogado mencionou um lugar chamado Mata-burro, que ninguém encontrava porque é conhecido como Prainha. Passei três dias dando voltas na represa. Até que o seu Roberto (pescador local) achou o corpo.

O senhor estava lá quando o corpo foi encontrado?

Não. O Roberto tinha emprestado um trator para os bombeiros rebocarem o carro do fundo da represa e, à noite, como não conseguiu dormir, saiu de barco e achou um corpo. Infelizmente era o da minha filha. Não dá pra esquecer aquele momento.

Por que a testemunha que viu pessoas jogarem o carro na represa não ligou para a polícia?

Ele ligou para o 190, que é a central de atendimento. Dali, eles transferem para a região da denúncia. Mas a essa altura ninguém atendia. Você sabe... o Mizael é ex-policial, já deveria ter instruído o pessoal...

Como ele chegou a vocês, então, para fazer a denúncia?

Pelo telefone impresso num dos 15 mil folhetos que eu distribuí pela cidade.

Seus filhos eram muito unidos?

A Mércia e o Márcio nasceram no mesmo dia, do mesmo mês. Ele em 1977, ela em 1981. Eram muito ligados. A Cláudia é mais nova, mas também vivia com a Mércia, tinham um escritório juntas. Numa das minhas vindas do Japão, comprei um apartamento (de três quartos, no centro de Guarulhos) e as meninas passaram a viver ali. O Márcio já morava sozinho. A Cláudia, agora, está casada. A Mércia morava comigo nesse apartamento.

E as coisas da Mércia?

Ainda está tudo como ela deixou ... roupa, sapato, cosméticos...

Como era seu relacionamento com o Mizael?

Nada demais. Tinha gente que o achava arrogante. Eu o vi na TV dizendo que vai punir quem o estava acusando.

Por que a Mércia terminou o namoro com ele?

Isso, pra mim, é um mistério. Minha filha não falava no assunto "namoro". Então também não me meti quando ele veio me pedir, chorando, que falasse com ela. Ouvi e o aconselhei a partir para outra.

Acha que ele a agrediu fisicamente?

Olha, ouvi de uma pessoa que trabalha aqui perto (do abrigo) que o Mizael usa de violência para conseguir o que quer.

Vocês (a família) eram contra o namoro?

Sempre o recebemos em casa, eu, a mãe dela e a avó. Eles namoraram três anos.

O senhor tem medo dele?

Já tive mais tranquilidade na vida. Hoje não saio mais à noite, porque não sei o que me espera. Você passa a desconfiar de todo mundo, tem pesadelos. Estou atravessando uma fase muito ruim.

Outro lado

Samir Haddad Júnior, advogado de Mizael Bispo dos Santos, diz que "os dois lados estão sofrendo com a história". Segundo ele, Mizael não vai se pronunciar, por respeito à família de Mércia. "Torcemos para que achem quem realmente cometeu o crime."

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