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Aids: ainda longe de um mar de rosas

No último fim de semana, o Ministério da Saúde divulgou os números atualizados da aids no Brasil, bem como as iniciativas e intervenções programadas para 2014. Estima-se que hoje 718 mil pessoas sejam portadoras do vírus HIV no País (0,4% da população). Desse número, cerca de 20% (140 mil pessoas) ainda não sabem do seu status. Logo, uma das ações programadas é justamente tentar ampliar esse diagnóstico.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2013 | 02h04

Para isso, o governo promete investir em campanha que estimula o teste, ampliar postos móveis de testagem rápida (diagnóstico em cerca de 30 minutos) e, ainda, subsidiar um exame, desenvolvido pela Fiocruz, que estará à venda nas farmácias a partir de fevereiro, por R$ 8. Qualquer pessoa poderá comprar o teste (que usa a saliva como indicador) e obter o resultado em poucos minutos.

Até então, os testes eram feitos basicamente nos centros de testagem e aconselhamento (CTAs) ou em laboratórios particulares, a partir de um pedido do médico. Nos CTAs, os resultados são transmitidos por profissionais de saúde. Se por um lado o teste caseiro pode ampliar o número de pessoas que passam a conhecer seu status sorológico, por outro, o impacto emocional merece atenção especial. Por mais que quem procure o teste saiba do risco de ter se infectado, receber um resultado positivo pode ser um baque. Seria importante ampliar e facilitar a rede de suporte e apoio emocional a esses futuros pacientes.

Outra medida, que já havia sido antecipada pelo Estado em outubro e que foi oficializada no último dia 1.º, é a distribuição de remédio contra o vírus para todos os portadores, e não mais apenas para aqueles que apresentam uma piora da sua resposta imunológica. As evidências atuais mostram que o uso precoce dos antivirais traz benefícios não apenas para o portador, como também uma redução importante no risco de transmissão do vírus HIV. Em teoria, se todos os portadores recebessem remédio, praticamente estaria zerada a transmissão de uma pessoa para outra. Não se discutem os benefícios da ampliação da cobertura de remédios para todos os portadores do vírus. No entanto, é bom lembrar que é fundamental o controle e adesão ao uso correto dos antivirais, sob o risco de se criar um vírus mais forte e resistente, que pode ser transmitido nessa forma de mais difícil combate.

Outra questão importante é que uma parte dos pacientes que usam cronicamente os antivirais, depois de anos de tratamento, abandona a medicação e fica exposta à ação do vírus sobre seu sistema imunológico. Por trás dessa "desistência" (que muitas vezes leva à morte) estão quadros depressivos. De novo, aqui, é importante que haja atenção para aspectos da vida emocional. Não é só dar remédio e achar que está tudo bem.

Para 2014, há também o início de um projeto mais consistente de uso da profilaxia pré-exposição. A ideia é fornecer uma combinação de antivirais para pessoas que ainda não se contaminaram, mas apresentam risco elevado de se expor ao HIV. Nesse grupo estariam incluídos, por exemplo, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, casais sorodiscordantes (em que um dos parceiros é positivo e o outro não) e, também, homens que fazem sexo com outros homens sem a devida proteção, de forma repetida.

No caso dos jovens homo ou bissexuais, alguns estudos apontam que a prevalência do HIV é muito mais elevada que a taxa da população geral. Com isso, eles estariam mais expostos a risco quando falham no uso consistente de camisinha. O preconceito e a violência contra a orientação sexual, muitas vezes, afastam esse jovem da proteção, do teste e do tratamento (por questões de autoestima, medo, etc). Estratégias que abordem esse público são imperativas. E para isso há que se vencer alguns setores mais conservadores do Congresso e da sociedade.

No ano em que a descoberta do vírus HIV completou 30 anos (foi em 1983), muita coisa mudou no Brasil, mas há ainda muito a fazer. Existem epidemias concentradas em alguns grupos, o número de casos novos não cai há mais de cinco anos (em média, 40 mil todos os anos), a transmissão vertical (da mãe para o filho), que já poderia ter sido zerada, ainda não foi, falta suporte aos portadores, entre outras tantas questões. Muitos pontos positivos para quem trabalha com a doença há décadas, mas ainda estamos muito longe de um mar de rosas.

É PSIQUIATRA

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