Águas de São Pedro, a 'sucupira paulista'

Não se fala em outra coisa na estância de águas medicinais com apenas 2 mil habitantes: prefeitura terminou a construção de um velório em 25 de julho, mas ainda não conseguiu inaugurá-lo

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

'Odorico'. Construção do velório era promessa de campanha do prefeito Paulo Renon: estreante vai receber homenagem    

 

 

 

 

 

"É preciso governar com os pés no presente e com os olhos no depois de amanhã. E pensando "prafrentemente" o futuro de todos nós é o campo santo", dizia Odorico Paraguaçu, ao justificar sua principal plataforma eleitoral, na obra de Dias Gomes, O Bem-Amado. Sem poder construir um cemitério, como em Sucupira, a prefeitura de Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, tratou de providenciar um velório para a população água-pedrense, que não tinha onde velar os mortos. Ocorre que, como na ficção, o espaço inaugurado no mês passado ainda não foi estreado.

Na cidadezinha de 2 mil habitantes - mais da metade aposentada - não se fala em outra coisa. Dona Flora Bontolim Dante, de 83 anos, já disse que se depender dela o tal velório vai ficar fechado pelo menos mais uns seis meses. "Eu não quero morrer já porque ainda tenho de dançar mais um carnaval vestida de baiana."

Desde que foi concluído, no dia 25, duas pessoas morreram, mas uma era catequista e foi velada na capela. A outra era um morador do município vizinho.

Vereadores. Por ser estância de águas medicinais, a cidade não tem cemitério. Nos últimos 20 anos, os mortos de Águas tinham de ser velados no plenário da Câmara e, em casos muito especiais, na Igreja Católica da cidade. "O Legislativo era um lugar muito aconchegante para isso, servíamos café para a família, tinha banheiro, lugar para sentar e está localizado no centro", diz o presidente da Câmara, Luiz Carlos Fonseca, de 57 anos.

Embora fosse um serviço de utilidade pública, era também um inconveniente para os nove vereadores. "Já cancelamos várias sessões. Sem contar que depois de um velório fica aquele ambiente de tristeza, cheiro de flor..." Na pracinha, o comentário entre os munícipes é que eles têm é "medo de alma penada".

O prefeito Paulo Renon, que já atende por Odorico, havia se comprometido durante a campanha eleitoral a construir o velório. A sala fica no próprio prédio da prefeitura, num lugar que já abrigou uma agência bancária e, mais recentemente, o almoxarifado municipal. A reforma custou R$ 15 mil: metade bancada com recursos públicos e a outra metade pela funerária da região. "Foi um feito muito importante da nossa gestão, mas não tenho pressa de que ele seja colocado em uso", diz. Para incentivar as famílias, o prefeito e os vereadores já disseram que vão homenagear o estreante dando o nome dele ao velório municipal.

Segundo estimativas da prefeitura, em Águas de São Pedro morrem seis pessoas por ano, média de uma a cada dois meses; a maioria por morte natural. Em 70 anos de existência, a população não lembra a última vez que presenciou um assassinato.

Até hoje, as mortes são anunciadas pelo padre no alto-falante da Igreja. Precedido de uma música fúnebre, o chamado "reclame" informa quem morreu, além da data e do local do enterro. O próximo vai provocar um rebuliço na cidade. O padre Antônio Portilho diz estar rezando para que as semelhanças com a novela parem por aí. O prefeito Paulo Renon também...

PARA LEMBRAR

Cemitério só é inaugurado no último capítulo

Personagem de uma peça feita sob encomenda pelo dramaturgo Dias Gomes, na televisão Odorico Paraguaçu foi interpretado pelo ator Paulo Gracindo. Gomes se inspirou em uma cidade no Espírito Santo, onde um candidato à prefeitura foi eleito prometendo construir um cemitério. A peça não chegou a ser encenada, mas virou sucesso na TV, na novela O Bem-Amado, a primeira em cores no País, exibida em 1973. Na trama, Odorico se elege com a promessa do cemitério em Sucupira, mas não consegue inaugurá-lo, já que ninguém morre na cidade. Em uma de suas frases pomposas e com neologismos, Odorico diz que "o falecimento é condição sine qua non do estado defuntício". É morto por Zeca Diabo, e, no último capítulo, o cemitério é inaugurado com o enterro de Odorico.

FICHA TÉCNICA

Águas de São Pedro foi fundada em 1939 pelo advogado Octávio Moura Andrade

Área3,9 km2

População 2 mil

Localização 180 km de SP

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