Agricultores temem mudança no clima

Produtores de Atibaia e agrônomos afirmam que usinas e represa aumentarão umidade do ar, prejudicando culturas de frutas na região

Eduardo Reina e Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2010 | 00h00

As famílias Biasini, Scarelli e Watanabe compraram terras em Atibaia, no interior de São Paulo, na década de 1930. Nas décadas seguintes, começaram a plantar frutas. Agora, dizem-se assustados com os projetos da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) para construir as miniusinas hidrelétricas no Sistema Cantareira. O receio é de que causem uma mudança no microclima da região e prejudiquem as culturas de uva, pêssego, ameixa e outras frutas.

O projeto de fazer uma represa no Rio Jundiaí faz aumentar o medo. Com objetivo de abastecer os municípios de Campo Limpo Paulista e Várzea Paulista, a barragem de 26 metros de altura e 265 metros de comprimento inundaria área de 1,37 quilômetro quadrado. E poderia ser integrada ao Sistema Cantareira. Agrônomos afirmam que o excesso de umidade que pode vir com as usinas e a nova represa favorece proliferação de fungos.

Sobrevivência. Geraldo Francisco Biasini, de 56 anos, disse que não sabe fazer mais nada na vida além de plantar e colher. "Se mudar o clima, como é que vamos sobreviver? Vou para onde?" Ele, dois irmãos e a mãe, Iolanda, produzem pêssegos e ameixas em 7,5 hectares.

Já os Watanabe chegaram à região por volta de 1928 e são os pioneiros no cultivo de uva em Atibaia - iniciaram a plantação em 1950. Hoje, a quarta geração trabalha na agricultura. Só de uva produzem 150 toneladas por ano, além de pêssego e caqui. "É uma preocupação muito grande. Vai afetar bastante a região", avalia Pedro Watanabe.

"As informações sobre a barragem mostram que as águas chegariam ao bairro Rio Acima e algumas estradas ficariam cobertas. Isso inviabiliza o escoamento da produção local", afirma Jaime Scarelli, cuja família chegou no local há 75 anos.

A prefeitura de Atibaia tenta abrir um canal de negociação com a Sabesp sobre esses problemas. "Esta região concentra a colônia italiana, que desde o início do século passado produz uva. A prefeitura busca o diálogo com a Sabesp no sentido de evitar a construção da nova represa ou, caso isso não seja possível, garantir que as famílias possam ser indenizadas monetariamente de maneira justa", registra nota da administração municipal. Como contraproposta, o município ofereceu parte de sua outorga de captação de água no Rio Atibaia à Sabesp.

A Secretaria de Estado de Saneamento e Energia, por meio de nota, esclarece que "a Barragem Campo Limpo, assim como mais de 30 outros aproveitamentos já estudados no passado ou propostos agora no Plano da Macrometrópole, está em fase de avaliação do ponto de vista técnico, econômico, ambiental, social e político-institucional".

A nota afirma ainda que o Estado vai avaliar todas as divergências. "A barragem de Campo Limpo foi concebida há mais de 30 anos e, hoje, temos conhecimento da posição dos moradores e proprietários da área. Como nos demais casos, todos os possíveis conflitos serão avaliados e, por ora, nada foi decidido em relação a este ou a qualquer outro ponto."

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