Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

Agredido em protesto vê ‘coerência’ na repressão do Choque

Após entrar em confronto com PM na zona leste, professor perdeu dois empregos

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2014 | 03h00

SÃO PAULO - O professor de inglês e assistente de help desk Rafael Marques Lusvarghi, de 29 anos - primeiro manifestante a ser detido pela Polícia Militar no ato de quinta-feira, 12, na zona leste de São Paulo - voltou para casa com duas marcas de tiros de borracha no peito, duas na perna, escoriações nas mãos, braços e costas, além de uma irritação nos olhos que permanecia até esta sexta. A ardência é resultado do spray de pimenta. Por causa da repercussão das imagens, ele perdeu nesta sexta seus dois empregos - em uma escola e em uma multinacional do setor de tecnologia. 

Lusvarghi já foi da PM de São Paulo e do Pará, teve passagens pela Legião Estrangeira, da França, e pelas Farc, na Colômbia. Questionado sobre o que achou da Tropa de Choque, diz que viu coerência na ação. “Eu sei que fui violento, que devolvi granadas, que provoquei o choque, que soquei, mordi e chutei e cuspi. Mas do meu ponto de vista, não há problemas na luta. Meu respeito e admiração pelas pessoas que vestem uma farda no Brasil, ainda mais por já ter sido um deles, continuam inalterado”, disse. “Defendo a PM, sim, mas quem fez a primeira agressão foi a polícia com granada de som e efeito moral, dispersando a multidão. Usei a força só depois que fui atacado.”

Essa foi a primeira vez que Lusvarghi participou de uma manifestação contra a Copa do Mundo. Ele veio de Indaiatuba, interior de São Paulo, onde mora sozinho, depois de saber do ato pela internet. 

Ainda pela manhã, quando a polícia começou a dispersar os manifestantes que estavam na frente da Estação Carrão do Metrô, o professor provocou os policiais. E, enquanto todos corriam das bombas e tiros, ele ficou desafiando, sem camisa, a Tropa de Choque. Acabou imobilizado, arrastado e preso.

O próprio comandante-geral da PM, Benedito Roberto Meira, disse nesta sexta que viu exagero na ação, mas Lusvarghi, apesar dos ferimentos, criticou o comandante. “É um discurso de quem quer tirar sua responsabilidade, a tropa seguiu sua ordem”, diz ele. “Depois que me detiveram, foram muito respeitosos comigo.” Ele foi levado à delegacia, mas por volta da hora do almoço já estava liberado.

Rússia. Lusvarghi demonstra um fascínio pelo tema de segurança militar, guerra, armas e cavalaria. Ele conta que foi da PM paulista por dois anos, a partir de 2002. Depois foi para a Academia da PM do Pará, onde ficou até 2009. Também compôs a Legião Estrangeira, famosa unidade militar francesa. As fotos nos seus dois perfis do Facebook certificam o histórico.

Ambas as páginas estão em russo. Lusvarghi se diz um apaixonado pela cultura e história russa - várias fotos fazem menção ao comunismo, a Josef Stalin e outros ícones da Revolução de 1917. Ele morou na Rússia entre 2010 e este ano. “Meu plano era entrar no exército russo, mas não fui aceito por causa da nacionalidade. Aí, fiquei e estudei”, conta ele, que cursou Administração na cidade de Kursk, localizada perto da fronteira com a Ucrânia. Antes de voltar para o Brasil, neste ano, foi conhecer as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). “Fiquei um mês e meio, mas não gostei muito.”

Apesar das escoriações e de ter perdido os empregos, Lusvarghi diz que está feliz com o que aconteceu. “Fiquei surpreso com a repercussão, me sinto extremamente feliz, orgulhoso e honrado de ter minha imagem vinculada a uma causa nobre, que não é somente contra a Copa, mas contra toda essa palhaçada que vem acontecendo em nosso País desde antes de eu nascer”, disse.

Depois de ser liberado pela polícia, ele ficou no ato até o fim do dia, mas não se envolveu de novo em nenhum conflito. Lusvarghi já se prepara para participar do próximo protesto que houver na cidade de São Paulo. “Eu vejo que era hora de uma revolução como foi a Revolução de 1917 na Rússia”, diz. “Na próxima manifestação, estarei presente e ativo novamente. Só preciso me recuperar um pouco para estar 100%.” / COLABOROU RAFAEL ITALIANI

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