Agentes de saúde tentam trabalhar longe da polícia

'Nessa fase, eles estão ariscos', diz coordenadora; nas entidades religiosas, procura por ajuda dobrou desde início da ocupação

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2012 | 03h03

Não são só usuários de crack e traficantes fazem de tudo para ficar longe da Polícia Militar na cracolândia. Para não serem vistos como parte da ação repressiva, agentes de saúde também se mantêm afastados dos policiais.

"Quando os agentes estão no território e chega a polícia, eles dão meia volta e saem fora", diz a coordenadora de Saúde Mental, Álcool e Drogas da Prefeitura, Rosângela Elias. Segundo ela, muitos usuários se sentiram traídos pelos agentes que atuam há dois anos e meio na área. "Nessa fase de ação policial, eles estão ariscos. Dizem: 'Vocês traíram a gente, chamaram a polícia'. Isso era esperado. Nesse primeiro momento, eles não estão querendo conversa." Apesar disso, Rosângela classifica a ação policial como "necessária".

Após a operação, a equipe de saúde também passou a ter dificuldades para achar os usuários de crack e deve repensar a estratégia. "Antes eles estavam na Rua Helvétia. Agora, onde estão?"

Enquanto a polícia fez 3.292 abordagens até agora na operação, as equipes de saúde fizeram 898. Dessas, 34 terminaram em encaminhamentos para serviços de saúde e 47, em internações. Nove pessoas foram levadas a hospitais e cinco para tratamento no Centro de Referência de Atendimento a Tabaco, Álcool e Outras Drogas. A maioria do atendimento é feito nos CAPs - há 22 voltados ao atendimento de dependentes de álcool e drogas na capital.

Dependentes também têm buscado ajuda de grupos religiosos. Representantes de igrejas católicas e protestantes na região contam que o número de atendimentos dobrou desde o início da operação. Usuário de drogas desde os 7 anos, pela primeira vez Alexandre Batista dos Santos, de 37 anos, resolveu aceitar ajuda para largar o vício. "Um servo de Deus falou comigo com carinho e eu fui atrás desse sentimento", diz ele, que agora vive em uma das casas da entidade católica Missão Belém.

O padre Gianpietro Carrara, coordenador da entidade, diz que os viciados têm chegado da cracolândia "arrebentados" física e psicologicamente. Segundo ele, cem pessoas foram já abrigadas na casa durante a operação - em campanha feita antes do Natal, só a metade desse número havia aceitado ajuda. Dizer sim representa enfrentar um período crítico de pelo menos dois meses. "Não somos uma clínica, não receitamos remédios, mas nesse tempo temos um cuidado especial com as pessoas."

Na Missão Batista Cristolândia, também houve aumento de viciados pedindo auxílio. "Atendemos agora de 200 a 250 pessoas por dia. Antes da operação, eram 120 no máximo", diz o missionário ex-usuário de drogas Wellington Amorim, de 26 anos.

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