Agências começam a sentir prejuízos com a crise aérea

O cenário dos aeroportos, desde o acidente do vôo 3054, refeltiu em cancelamentos de pacotes

Pedro Henrique França, Agência Estado

24 de julho de 2007 | 20h05

Se por um lado as empresas de transporte rodoviário começam a absorver a demanda de passageiros aéreos, nas viagens de curta duração, como São Paulo-Rio de Janeiro, as agências de viagens, por sua vez, já trabalham com prejuízos. Os problemas no Aeroporto de Congonhas, cenário da maior tragédia aérea do País, com o Airbus A-320 da TAM, refletiram cancelamentos e desistências dos pacotes.   Veja também:  Uma semana depois, apenas 68 vítimas são identificadas Lista de vítimas do acidente do vôo 3054  O local do acidente  Quem são as vítimas do vôo 3054  Histórias das vítimas do acidente da TAM  Galeria de fotos  Opine: o que deve ser feito com Congonhas?  Cronologia da crise aérea  Acidentes em Congonhas  Vídeos do acidente  Tudo sobre o acidente do vôo 3054   "As agências de viagens em vez de receberem compras de pacotes, começam a receber pedidos de ressarcimento. E as empresas vão ter que providenciar isso", afirmou à Agência Estado o vice-presidente nacional da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Carlos Alberto Amorim Ferreira. "O momento é delicado, ainda estamos sob o impacto da tragédia, mas é claro que mais dia ou menos dia vamos ter que avaliar (o montante dos prejuízos", complementou.   Diante do inconstante abre-e-fecha no terminal aeroportuário paulista verificado nos últimos dias, desde o acidente da TAM o movimento é de caos, como aponta Ferreira. "Está caótico", diz ele. O executivo lembra, entretanto, que a queda já vinha sendo observada desde março deste ano, principalmente no mercado doméstico - mais afetado pelos atrasos conseqüentes do apagão aéreo, deflagrados no acidente do Boeing 737-800 da Gol, em setembro de 2006. "Entre março a junho tivemos recuo de 25% a 30% no mercado doméstico", pontua.   Segundo Ferreira, com a queda do dólar, o turismo se direcionou para o mercado internacional. No entanto, este nicho que, até então, não vinha sendo prejudicado, também começou a sentir os efeitos dos problemas de Congonhas. "Da semana passada para cá, praticamente, parou tudo. As pessoas não conseguem viajar e ninguém tem informações, nem as próprias companhias sabem qual vai ser a malha delas", afirma.   As palavras do vice-presidente da Abav ganham mais sentido com o comunicado da aérea Gol, segundo maior player do mercado, em que solicita aos passageiros com viagem marcada que adiem para até a próxima segunda-feira (30), quando, de acordo com a companhia, estimam que o fluxo de tráfego aéreo seja restabelecido. "A Gol mesmo reconhece que nem ela sabe o que fazer, o que informar", comenta o executivo da Abav.   Mercado corporativo   Especializada em gerenciamento de viagens corporativas, a empresa Carlson Wagonlit Travel também já contabiliza os prejuízos. "Desde a tragédia da terça-feira passada, já verificamos uma queda de 30% a 40% no movimento", afirma o presidente da companhia, André Carvalhal.   Segundo Carvalhal, com a decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), tomada nesta terça-feira, de não vender mais passagens com partida em Congonhas, a situação deve ficar ainda pior. O objetivo da Anac é normalizar o fluxo aéreo, que sofreu muitos atrasos nos últimos dias. "Com a possibilidade de não ter mais vôos em Congonhas, a tendência é piorar", declarou o executivo.   O presidente da Carlson informa ainda que muitos clientes estão optando por desistir das viagens ou postergá-las, sendo que alguns já definiram: não querem mais vôos com partida ou destino em Congonhas. O prejuízo, diz ele, será natural. "Há uns dois dias trabalhamos mais para atender telefonemas e cancelar viagens do que para emitir passagens, que é o nosso negócio", lamenta.   "No curto prazo, de 15 a 30 dias, todo mundo - companhias aéreas e agências - vai amargar prejuízos. Teremos que conviver com essa situação de caos", relata Carvalhal. E emenda: "No final das contas, os passageiros também acabam pagando a conta pois, com a diminuição de oferta, as tarifas tendem a aumentar. Vai ser pior pra todo mundo".   A opção de remanejamento para o Aeroporto de Guarulhos (Cumbica) também não é vista mais como uma solução tão viável assim. "Você procura vôos para Guarulhos e não tem mais, o aeroporto já está abarrotado. Ou seja, as opções estão mais restritas. A saída é, quando pode, deixar de viajar", conta. "Eu mesmo estou com passagem amanhã para Porto Alegre, em Congonhas, e não sei se vou".   Para Carvalhal, as ações tomadas na última semana não trazem efeitos no longo prazo. "Vemos mais ações reativas, do que eficazes no longo prazo. Está todo mundo reagindo por impulso", critica.   Retomada do turismo rodoviário?   As empresas de transporte rodoviário admitem registrar crescimento na última semana, desde o incidente com a TAM. O aumento é verificado em viagens de curta duração, para Estados como o Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais. A Auto Viação 1001, por exemplo, declarou ter registrado crescimento de 35% nos itinerários de curta distância. A Itapemirim, por sua vez, declarou alta de 10% a 15% no movimento. Ambas admitem que o aquecimento na procura decorre da desistências de usuários do transporte aéreo, que teriam tido reação praticamente imediata após o acidente da TAM.   O vice-presidente da Abav é receoso em falar sobre a retomada do turismo rodoviário, há muitos anos liderado pelos pacotes com passagens aéreas. "Com o barateamento das passagens, a facilidade de se viajar e a precariedade das estradas, o turismo rodoviário praticamente desapareceu", analisa Ferreira.   O executivo pondera, entretanto, que a retomada do turismo rodoviário pelas agências de viagens, no que diz respeito a viagens mais curtas, não é descartada. "Esse movimento pro setor rodoviário pode voltar, mas demanda algum tempo. Teria que haver um estudo de mercado", salienta. E reforça: "O transporte rodoviário pode suprir bem o itinerário São Paulo-Rio, que é melhor fazer de ônibus mesmo, já que não tem avião".   Em recado direcionado aos passageiros, confusos e indignados com toda essa situação, o vice-presidente da Abav recomenda: "É necessário cautela e paciência. Não adianta ir pros aeroportos e ficar à espera dos vôos. Tem que esperar clarear um pouco".

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