Advogado oferece R$ 20 mil por Portinari

Carlos Ely Eluf diz que obra avaliada em R$ 500 mil foi retirada de sua casa e trocada por réplica

Luciano Bottini Filho, Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2013 | 02h03

Um advogado está oferecendo R$ 20 mil para quem descobrir onde está uma tela de Cândido Portinari que, segundo ele, foi furtada de seu apartamento no Jardim Europa, zona sul de São Paulo, no dia 20. Carlos Ely Eluf, de 65 anos, afirma que a obra Fetiche (1959), avaliada em R$ 500 mil, foi trocada por uma réplica e coloca um marchand sob suspeita. Sua filha, a também advogada Carolina Eluf, de 36, percebeu a fraude quase duas semanas depois, na quinta-feira da semana passada.

Eluf, que já representou o ex-presidente Fernando Collor, o ex-governador Orestes Quércia e o banqueiro Salvatore Cacciola, acredita que o responsável pelo crime é Jenner Accioly Lins, de 76 anos, que nega o crime. Segundo o advogado, Lins já tinha visitado o local e se dizia um marchand autônomo. No dia 20, segundo a vítima, ele foi deixado sozinho durante uma hora com o quadro de 27 por 18 centímetros, enquanto a mulher do advogado estava em outro andar do dúplex onde eles moram e colecionam obras de Carybé, Carlos Páez Vilaró e Di Cavalcanti.

Lins, no entanto, disse ao Estado que é aposentado e só raramente intermedeia essas transações. Ele teria vendido outro quadro a Eluf em dezembro e conta que a última vez em que esteve no apartamento foi há 30 dias. "Esse quadro tem de ser achado rápido para não se deteriorar. Quem rouba quadro na casa dos outros é gente de baixo nível." Ele acrescentou que tem de ser investigada "gente de dentro" do apartamento.

Desde que descobriu a troca, Eluf diz que não tem conseguido falar com Lins. O anúncio da recompensa foi publicado nos Classificados do Estado com uma reprodução da tela: "Gratifica-se quem der informações exatas sobre seu paradeiro".

Um inquérito foi aberto no 15.º DP (Itaim-Bibi) e a tela falsa vai passar por perícia. A Interpol foi comunicada, assim como galerias em Londres, Nova York e Paris.

Troca. "Quem fez isso não imaginou que fosse descoberto tão rápido. Se não fosse minha filha (que estudou Arte), eu ia ficar dez anos olhando o quadro sem perceber", explica o advogado criminalista, que comprou a tela há 30 anos.

Ao ver o quadro na casa do pai na quinta-feira, Carolina percebeu alguns aspectos diferentes: os pés da figura do quadro estavam maiores do que ela lembrava, a cor do chão estava mais escura e havia na paisagem um cano que na pintura original não existe. Além disso, haviam muitos borrões a mais. "Eu sabia que era falsificado desde o início", disse a advogada.

Eluf ainda não estava convencido. Carolina então recuperou uma foto de quando ela era criança ao lado da tela e mostrou as diferenças. Por fim, procuraram a imagem na internet e confirmaram: o quadro era igual ao da foto, mas não era o mesmo que estava na parede.

Ao inspecionar a tela com mais cuidado, descobriram um furo feito com estilete na parte de trás, perto da moldura. Eles acreditam que o ladrão cortou o fundo do quadro para trocar a tela.

No dia 20 de abril, segundo Eluf, Lins foi para o apartamento com uma mala, dizendo que ia viajar para o Guarujá no mesmo dia. Isso, segundo o advogado e a filha, é outro indício: a tela poderia ter sido enrolada e colocada na bagagem. O acusado nega a história.

Obra. O quadro original, que não tem nenhum seguro, foi feito por encomenda da atriz Cacilda Becker, para estampar o convite da primeira apresentação de uma companhia brasileira de teatro na Europa, no Teatro Tivoli, em Lisboa.

O quadro está registrado como patrimônio histórico e catalogado pelo Projeto Portinari. "Essa obra é invendável", explica Lins. "É difícil comercializar esse quadro." Em uma coisa, pelo menos, Lins e Eluf concordam.

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