Adoniran Barbosa: os bairros de São Paulo em dez canções

Brás, Mooca, Bexiga e outros lugares cantados e "encantados" nas composições do sambista

Luiz Felipe Barbiéri, O Estado de S. Paulo

05 Novembro 2015 | 16h17

João Rubinato não era paulistano. Adoniran Barbosa, sim. O primeiro nasceu na cidade de Valinhos, em 1910. Era filho de imigrantes do Vêneto, região nordeste da Itália.  O segundo cresceu na boca do povo de São Paulo, nas crônicas em forma de samba que ainda hoje passeiam pelos bairros da maior cidade do País.

João Rubinato resolveu virar Adoniran Barbosa porque queria ser sambista e não tinha nome de um. Então pegou o “Adoniran” de um amigo e o “Barbosa” de outro sambista, o Luiz.

A partir daí, de João para Adoniran foi questão de samba. “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto” e “Trem das Onze” são alguns dos sucessos do cantor e compositor que viria a ser reconhecido como uma das maiores vozes da população ítalo-paulistana.

Suas letras se apropriavam de um português escrachado, que unia o sotaque caipira ao paulistano e o jeito de falar dos imigrantes. Amarrada a crônicas do cotidiano popular, a obra de Adoniran Barbosa ficou marcada por retratar diferentes lugares da cidade, ora embasada em histórias inventadas na imaginação fértil, como em “Samba do Arnesto” e “Trem das Onze”, ora resultado de sua observação e percepção das transformações da capital, como em “Praça da Sé”.

O Samba do Arnesto (Brás)

O famoso “Samba do Arnesto” é uma pequena amostra da fértil imaginação de Adoniran. Arnesto era, na verdade, Ernesto Paulelli, um músico nascido no Brás. Aos domingos, o violonista se apresentava em programas da rádio Eldorado, ao lado de grandes nomes da música brasileira. Adoniran o conheceu nos bastidores da Record em 1938 e pediu um cartão do músico. Leu “Arnesto Paulelli”, em vez de Ernesto. Mesmo depois de corrigido, não recuou. ‘‘Não, você é Arnesto. Seu nome dá samba. Vou te fazer um samba. Aduvida?”. O samba tardou, mas dezessete anos depois estourava nas rádios.

Saudosa maloca (República)

A empatia também inspirava Adoniran em suas canções. Por dezessete anos ele viveu na Rua Aurora, na República, região central de São Paulo. Foi do edifício Santa Ignez, onde residia, que ele viu o sobrado em que moravam dois carregadores de feira, o Joca e o Mato Grosso, ser demolido. Comoveus-e com a situação e escreveu “Saudosa Maloca” em 1951.

 

Trem das onze (Jaçanã)

A mãe de Adoniran Barbosa com certeza não teria dormido se tivesse esperado o filho pegar o trem das 23h para o Jaçanã. Isso, porque não havia função na ferrovia nesse horário. Tampouco Adoniran morava no bairro. Apesar disso, a Tramway da Cantareira foi eternizada pelo sambista nessa canção.

 

Um samba no Bixiga (Bela Vista)

O bairro tem uma forte ligação com o compositor. Até hoje é possível ver o rosto de Adoniran nos semáforos da região. “Domingo nós fumo num samba no bexiga/Na rua major, na casa do nicola/A mesa não deu conta/Saiu uma baita duma briga/ Era só pizza que avuava junto com as braxola”

Vila Esperança

Na música “Vila Esperança”, o cantor presta sua homenagem ao bairro da zona leste de São Paulo, onde ele teria comemorado o primeiro Carnaval e conhecido seu primeiro amor: Maria Rosa.

O casamento do Moacir (Vila Ré)

A Vila Ré também foi lembrada por Adoniran em “O casamento do Moacir”. “Aranjemos uma beca preta e um sapato branco bem apertado no pé. E se apreparemos para ir na catedral lá da Vila Ré.”

Abrigo de vagabundo (Mooca)

Depois de cantar o Brás e o Bexiga, a Mooca não poderia ficar de fora. Em 1958, era lançada “Abrigo de Vagabundo”. “Lá no alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente dez de fundo, construí minha maloca.”

Viaduto Santa Ifigênia

Adoniran gravou essa canção em 1978. Ele teria ficado encantado com a construção, que data de 1913, e foi erguida com peças de metal trazidas da Bélgica.

Praça da Sé

Outra música que mostra o trabalho de observação e a percepção do sambista sobre as transformações em curso na cidade é ‘Praça da Sé”, escrita em 1978, logo depois da reinauguração da praça. Ela havia sido fechada por seis anos para a implantação da estação do Metrô. “Praça da Sé, Praça da Sé, hoje você é, Madame Estação Sé.”

 

 

No Morro da Casa Verde

A paixão dos moradores da Casa Verde pelo samba também inspirou uma de suas canções. Juntos, Casa Verde e o vizinho Limão reunem cinco escolas de samba: Rosas de Ouro, Unidos do Peruche, Império da Casa Verde, Mocidade Alegre e Morro da Casa Verde. 'Silêncio, é madrugada. No Morro da Casa Verde a raça dorme em paz. E lá embaixo os meus colegas de maloca quando começam a sambar não para mais'.

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